sábado, 19 de abril de 2014

Tenho andado para te dizer,

Que daquilo que planeamos com a cabeça na terra, metade não se concretiza.

Que não vamos a todos os lugares que pensámos ir.

Que começamos a gostar do sabor das coisas que dissémos não gostar a vida toda.

Que às vezes ficamos por casa, no sofá e o dia está bonito lá fora.

Que sabe melhor a ausência das pessoas do que a ausência das coisas.


quarta-feira, 12 de março de 2014

Tenho andado a pensar no medo. Cheguei ao ponto em que o medo quase só mete medo se for para sempre. Somos quase sem medo se não for para sempre. Até ao escuro perdoamos o susto se for por pouco tempo. É quando os olhos começam a ver melhor na escuridão que ficamos com medo. Vemos melhor, mas vemos com mais cuidado, com mais olhos, com mais tacto, mais pele e nariz. E imaginação.
A dor aguenta-se. Forte, penetrante, afiada. Se for pouco tempo. E se me disserem, vão ser só uns minutos. O medo encolhe-se, fica mais baixo que eu. Posso olhá-lo de cima e pensar; ´Não tardará para que desapareças´.
´Vai demorar muito?´, perguntaste-me tu. E eu virei a cara sem te dar resposta. Acho que vai durar a tua vida toda. Mas como é que posso dizer-te assim, sem que o medo te agarre e te torne pequenina. É que é para sempre. O teu sempre vai ser  cheio desse medo. As sombras serão sempre silhuetas. As coincidências serão sempre premeditadas. Não vai passar.

Tenho andado a pensar no medo. Oxalá alguém nos dissesse ao ouvido; ´Desta vez não é para sempre.´ Só para saber. Só para saber.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Paixões Abandonadas I

Vá de olhar ao espelho. E encontrar no corpo alguma paixão abandonada. A marcar a pele, daquela forma que até levamos ao médico para nos descansar a sensatez e dizer que está tudo bem, que é normal. Não vai desaparecer, mas também não fica maior se não se puser a esgaravatar. Olhamos para o abandono todos os dias, às vezes passamos só a mão, quando achamos que não temos tempo.
E andamos assim, todos cheios de paixões abandonadas. Algumas conseguimos tapar com a roupa. Os menos afortunados andam com elas à mostra e toda a gente as vê. Mas não faz mal, já ninguém diz nada. Parece que nos habituámos a abandoná-las. Sem querer. Ou deliberadamente.

Depois há quem chegue ao fim do dia e respire de alívio. Não era uma paixão abandonada. Afinal era só uma zona de pressão na pele. Por se ter ficado muito tempo na mesma posição.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Agora, com certeza.

Estou a apagar-me. Dia-a-dia. De mês para mês. De há quase 3 anos. Estou a apagar-me. Já não faço parte do café. De um casal. Da conveniência. Da casa de um amigo. Do jantar da universidade. Vai sobrando o ´Olá´porque estás. A falta de assunto. Os dois beijos na cara. O ´fico em casa porque estou com a única pessoa que preciso. No sofá. E aqui está quente.´. Há qualquer coisa a menos. E se vos perguntar respondem-me que é tempo que vos falta. Que o trabalho é cansativo. Que amanhã acordo cedo. E eu respondo, honestamente, ´Está bem, eu compreendo´. E depois vou no carro a pensar. Será que compreendo? Será que é falta de tempo? Ou no fim de contas é só tempo a mais. Ela há-de cá voltar. O filme há-de dar para fazer o download. O restaurante ainda não fechou. A exposição ficava longe e afinal não era assim nada de especial - disse um amigo meu. As estradas são as mesmas. A Arrábida este ano não ardeu. Quem é que se casa primeiro?

Ninguém vai beber café. Mas tenho-te a ti. E basta-me. Calhe-nos a sorte de ser sempre assim.

Estou a apagar-me. Mas ninguém me apagou. Com propósito. Com maldade. É que como não estou, o hábito é não estar. A rotina faz-se ausente de mim. E depois não faço mais falta. Genuinamente, o tempo que é muito faz-se sem mim. E quando eu volto, o tempo que é pouco não aviva a memória. Não vos faz voltar a ver. Genuinamente, sem propósito, sem maldade.

Tenho inveja e saudade. Que me trazem cá, mas destroem cada vez mais. Pergunto-me: Onde é que eu estou agora?

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sinto falta que me faças perguntas íntimas, as tuas perguntas que eram sempre as mais porcas, as mais verdadeiras. Não te interessava saber aqueles pormenores sem sabor, aquelas conveniências de quem tenta apenas manter conversa. Foste sempre a mais directa e perguntaste sempre o que tinha de ser perguntado. Às vezes ganhavas vergonha e escondias as perguntas atrás de uma expressão qualquer timida. E que fingida. Desatava a rir-me e pedia-te para te deixares de cenas. Depois contava-te tudo, sem pudor, sem vergonha, sem sentir que tinhas inveja do que quer que fosse. De vez em quando queria tanto que me perguntasses. Especialmente naqueles dias em que tinha a alma e o corpo cheia de borboletas, lagartas e insecticida. Naqueles dias de remoinho em que aquilo que achavas era importante para mim porque era sincero. Não me iludo a pensar que me ouvias sempre da mesma maneira. Às vezes também tinhas tantas lagartas em ti que as duas juntas formavamos casulos impossíveis de cuidar.
Tens de admitir, faltava-te um bocado de classe de vez em quando. E agora sim, posso dizer-te, que inveja. Na tua falta de classe estava a falta de pudor, a falta da vergonha, a falta do medo, a falta de pensar naquilo que outros podiam achar de ti. Eras tão fácil de gostar. E aqueles que nunca conseguiram chegar àquilo que realmente eras foi apenas porque nunca te esforçaste por agradar. Ofereceste sempre primeiro o teu lado desajeitado, a tua forma leviana de falar de sexo, a tua inércia. A quem conquistavas mesmo assim, oferecias uma lealdade sem fim, uma intimidade sem julgamentos, uma loucura inata por filmes, imagens e palavras bonitas. Oferecias mais, uma imensa falta de pretensões. O que era, era. E por fim, guardavas em ti os segredos que eram só teus. Nunca me incomodou que os tivesses. Deixava-nos à altura. Há coisas que ninguém tem de saber para além de nós. Há coisas que nos fazem corar por dentro só de pensar, e que nunca vamos deixar de fazer e sentir porque somos só humanos, somos animais. 



Vezes sem conta, fazes-me falta. E eu sei que te faço falta. Desde que caímos naquele baloiço. Fico à espera, não de te substituir, mas de encontrar alguém com tantas falhas e lascas, como tu, como eu. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Zanguei-me. E fiquei assim, zangada. Não sei o que mordeu, o que é que me afincou os dentes. E por isso, não sei deixar ir, perdoar. Olhei à minha volta, procurando entre o céu azul, as montanhas e os prédios. Não foi a falta do sol, não foi o excesso. Não foi a tua falta. A falta deles, da mãe, do pai. Também não foi o excesso. Não foi de não querer ou de querer demasiado. Não foi do anti-rugas, não foram as vitaminas.

Sobra apenas o mais irremediável, a dentada mais difícil de sarar. Sobro Eu.

Tirando roer as unhas, morder o interior dos lábios, cortar os dedos a cozinhar e fazer nódoas negras de bater em toda a parte, já não sou capaz de me aleijar. Já não consigo apagar cigarros na própria mão. Agora que me acho muito mais crescida, a única coisa que faço é procurar tréguas, declarar paz comigo mesma. Dispo-me dos outros mais vezes, obrigo-me a conversar comigo, a abraçar-me de vez em quando. E podia dirfarçar, dizer-me bem sucedida. Mas estou pesada para mim mesma. Pesada para os outros. Sou a má companhia de mim mesma.

Continuo a pintar telas, a afundar-me em ficções no meu computador, a ler histórias em papel, a cuidar dos meus doentes. À espera. Tão desesperadamente, tão discretamente à espera. Que esta raiva acabe.


"Já não sei o que te dizer. Estás sempre tão zangada. Não faças essa cara." diz a mãe à despedida.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sabes

Sabes... é agora. Que o frio nunca mais acaba. Que os teus avós ficam antigos e morrem. Que os teus melhores amigos passam dias sem se lembrar de ti. Que aquele homem que fazia sentido encontra outra direcção. Que a pele nunca mais escurece ao sol. Que fazes contas à vida, que pões os pesos na balança. Sabes... é já. Que não há voltar atrás. Que os teus olhos sabem mais do mundo, do cheiro, do toque. Que as conversas de antes trazem melancolia, sem desejo, mas com saudade. Que os teus pais tornam-se cansados. Que os seus conselhos são duros, por serem verdade. Por revelarem tanto acerca da solidão que há-de vir. Sabes... é neste momento. Que fechas os olhos, que não sentes nada. Que não choras. E ris porque sabe-te bem rir de ti mesmo. Tu sabes, não sabes? Que de ambivalências vivemos nós. No sim, no não. E não me respondas talvez. Talvez é adiar que sim, adiar que não. É temporário. No cá, no aí. E não me respondas a meio caminho. A meio caminho só estamos longe: do cá, do aí. E nunca estamos realmente em lugar algum.

Sabes... talvez seja assim. Que nos tornamos invisíveis, que somos memórias. Talvez. Até agora. E tu já sabes... ou que sim. Sem existir o ou que não.

sexta-feira, 22 de março de 2013

O muro estava pintado de branco



O muro estava pintado de branco, podia imaginar que não tinha sido pintado há muito tempo. A chuva arrastava a tinta para o meu vestido e as minhas mãos tremiam nas tuas. O teu casaco nos meus ombros fazia-me pensar nas regras do cavalheirismo e nas regras do corpo. O teu não era mais forte que o meu. E ainda assim, porque não podia ser de outra maneira, ofereceste-mo para cobrir os meus braços, deixando os teus ao frio.

Sorrias sempre depois de me dar um beijo na testa, no queixo, nos lábios. E eu já nem conseguia distinguir as gotas da chuva que desciam pela tua cara, das lágrimas que eram demasiado para os teus olhos. Às vezes apertavas-me o corpo, não posso dizer que me abraçavas. Apertavas com força e largavas tão rápido quanto a memória de que não me ias ter mais.

Eu passava a mão pelo teu cabelo molhado, parava no teu pescoço e ficava ali. Os meus olhos não te diziam  nada, a minha boca não te dizia nada. Não te apertei, não te mandei embora, não te deixei ficar. E como antes, voltaste a dizer que eu era fria. Que eu precisava ser mais humana.

Já sentia os pés molhados, e pensava, sem te dizer, que sou mais humana do que tu sabes.

Deste um beijo nos nós das minhas mãos e foste embora. Fiquei a ver-te andar. Sem nunca correr atrás de ti. Sentei-me no muro que era branco. Ninguém passava àquela hora. E acabei por vir parar aqui.


sábado, 2 de março de 2013

Já ninguém diz nada. Agora é a medo, lembrar.

Já não digo nada, com tanto que tenho para te dizer. É que ficaste aí parada, e nós temos de continuar. Nós queremos continuar.E quantas são as vezes que acho que não mereço mais do que tu. Quantos são os dias em que me culpo de ter mais tempo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Segredos

Como é que levaste este segredo contigo? Como é que conseguiste? Sinto-me de gatas no chão, de olhos vendados, à procura da ponta de alguma superfície, da ponta da verdade.

Eu sei que não tenho de a encontrar, à verdade. Mas quero. Não sei se sabendo o que falta me ia sentir mais perto de ti. Eu sei que não esperavas morrer ali, naquele dia, daquela maneira. Eu sei que não escondias um segredo para sempre. Mas porque é que não insisti mais? Como é que me contentei com uma fotografia, um nome? E os teus telefonemas, para quem eram? Porque é que a curiosidade não me consumiu antes?

Penso em ti todos os dias. E às vezes tenho de lembrar a mim mesma que já não estás comigo. Agora procuro e-mails antigos, procuro pessoas que nem sei se existiram. Procuro por ti, à procura de uma prova, de um sinal qualquer que me diga a verdade.

Tenho a tua vida toda decorada. Menos uma verdade. Menos um homem, que eu nunca vou descobrir quem é.  Só para lhe perguntar,


"Estás bem?".






sábado, 17 de novembro de 2012

Não sei amar-te.

Não sei trazer-me comigo cada vez que estou contigo. Dou-te o corpo. Dou-te o tempo. Mas não me dou.

É este o meu segredo, é isto que escondo quando me fixas nos olhos e perguntas o que é que eu estou a pensar. É isto que tenho em mim quando me vou embora a meio da noite. Quando invento desculpas para não voltar.

É este o meu segredo, é isto que não te consegui dizer antes de tu me perguntares. Não consigo gostar mais de nós do que de mim. Não consigo despir a alma como consigo despir o corpo. Não consigo trazer-te à minha casa, dar-te os meus amigos. Cozinhar para ti. Não consigo baixar a guarda, ser tua amiga. Não consigo desiludir-te, ser o contrário daquilo que tu achas que eu sou. Não consigo ser-te imperfeita. Não consigo respirar.

Deixo-te agora. Não posso ser o teu único mundo quando tu ainda não entraste no meu. Não posso ficar, não posso prometer mais. Quero dar-te o tempo de encontrar algo mais que eu. Que te faça feliz, sempre.

Já sinto a tua falta. Do que eu sou no teu abraço, para onde me levas longe deste gelo que eu sou. E vou sentir a tua falta. Mas tu não podes saber. Vou-me lembrar de quão próxima estive. Do quanto quis gostar de ti. Vou-me lembrar da forma como te arranquei o coração do peito e o desfiz à tua frente. Vou sentir pena de não ter um para te dar. É que este que eu tenho não presta. Este que eu tenho não funciona como é normal.

Vou-me embora. sem poder olhar para trás. Não posso colar-te o coração. Desejo, como nunca desejei nada, que alguém te o arranje, alguém que te saibe amar bem, amar melhor, e sempre.

"Então e tu, vais ficar sozinha para sempre?". Sim, se tiver que ser. "Ninguém consegue viver assim, olha para mim". Eu sei. Mas não volto a tentar.

domingo, 30 de setembro de 2012

Ainda agora,

Ainda agora aqui cheguei. Já me estou a ir embora. Com este peso nos olhos, molhados. Com este peso no peito. Sinto o meu corpo a dobrar,  a tender para o chão.

Ainda agora aqui cheguei. Vocês falam-me do que já aconteceu. Eu tento dizer alguma coisa, mas já foi tudo dito. Já passou.

Ainda agora aqui cheguei, não tenho tempo de vos sentir inteiros. Vejo metade de vocês.

E agora vou-me embora. Com saudade de não sentir medo. Que vocês se esqueçam de mim.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Charlie,

onde estás? Para onde vão as almas dos corpos que não morrem, mas enlouquecem? 

           Conheci um Senhor, como os outros. Embaraçado, a lamentar. A enfermeira tem de ajudar a urinar. A enfermeira tem de ajudar a levantar, a baixar as calças. E o Senhor pede desculpa, agradece, a noite toda. Foram 3, as noites. 3 noites a desculpar, 3 noites a baixar as calças, a aconchegar os lençóis,
"Tente descansar Charlie, Boa noite".
"Boa noite Laura".
       Charlie, onde é que te perdeste? Que estranho mundo é esse em que ficaste na tua cabeça? Que conexões é que se fizeram, o que é que se desfez? O que é que aconteceu na natureza, que matéria é que se alterou? Que física, que química? Te levaram daqui.
        É de madrugada, esqueceste-te do meu nome. No dia a seguir,deste-me outro. Passei a ser russa, depois alemã. Escondida. Olhaste para os outros homens deitados ao teu lado. Fizeste ameaças, falaste baixinho. Já não pedes desculpa. Estás a ser verbalmente agressivo. Obsessivo. Estás a andar de um lado para o outro. Agarro-te, como é que posso ter medo de ti? És rápido, bebes o álcool desinfectante, chega a segurança. Vais ser posto da cama. Agarrado, à força.
"Olha para mim Charlie, como é que eu me chamo?".
           Já não sabes quem eu sou. E olho-te nos olhos: És outro homem dentro do mesmo corpo. Penso para mim se vais voltar. Não sei se vais voltar. No fim da tarde a tua família pergunta por ti. Aponto-lhes um homem. Um que eu conheci há 3 dias atrás, que eles conheceram a vida toda. Mas não és tu que aí estás.
"Oh Charlie, volta."
Penso em ti. Pior que a doença dos braços, das pernas, do tronco, é ser dois homens diferentes em 4 dias.

domingo, 15 de julho de 2012

Balança

, que pesa o mesmo para os dois lados. Sem tendência, sem se mexer. Preciso de ti, território neutro, sentir pele de galinha sem medo. Já não sei estar ali ou cá. Sinto a nossa falta, que não tinha esta ansiedade,este custar a inspirar. Sinto a nossa falta,quando havia tempo,quando não pensávamos no tempo. Sinto a minha falta, quando não havia prazo de validade, quando as pessoas não morriam. Sinto a tua falta, a tua pele vermelha do sol, os teus olhos mais verdes do sol e da água salgada. Dos teus atrasos. Eras sempre a última. Porque é que não foste a última desta vez? Diz-me para ter calma, como antigamente. Diz-me que vai ficar tudo bem. Obriga-me a ter calma.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A vela apagou-se. Fiquei às escuras. Ninguém a apagou com um sopro, ninguém a colocou ao vento, ninguém lhe tocou. A cera é que acabou. Ficou só a que secou enquanto escorria pelo castiçal. Do pavio sobrou um resto. Aquele que não pode queimar mais. Fico surpresa, como se não estivesse à espera que fosse assim. Estava? Sim, mas não estava preparada. Continuo a pegar no isqueiro, ofereço lume ao pavio. Ele acende-se, mas a chama já não dura mais que 2 segundos. Sinto falta, daquela luz que me aquecia.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

XVII

Passou um ano neste quarto escuro. Mais escuro depois de ti. Sei ao segundo o momento em que me vieram dizer. Tenho decorados os passos que dei até me mandarem sentar, aquele arrepiar da pele, aquele frio, que ainda sinto. Ainda penso todos os dias. Às vezes só com saudade de te ter, na maioria, com a raiva de já não estares cá. Ainda não te aceito aí, quando a minha vida continua, e faço isto e aquilo, vou aqui e ali. E tu não. Tu já nunca estás comigo, só na memória, só nos meus desejos. Vejo os teus vídeos, vejo fotografias. E já são sempre as mesmas. Desde há um ano, vais ser sempre a mesma. Sempre com 22 anos, sempre sem a dieta que ias tentando, sem trabalhares na Austrália, sem conheceres o mundo, sem teres uma biblioteca e uma sala de cinema em casa, sem teres aulas de tango,sem teres um filho. Vais ser sempre a mesma. E eu que tenho tanto para me lembrar de ti, acho que não chega. Vou chorar sempre mais por ti do que por mim. Porque não tiveste mais tempo. Se eu pudesse, dava-te metade do meu. Sem olhar para trás. Porque sinto falta de ti. O meu coração continua no mesmo sítio, mesmo que o corpo esteja num sítio onde tu nunca estiveste.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

XVI

Pergunto-me como é que seria. Há dois anos fomos protagonistas daquela cena de filme da nossa queima das fitas. Não consigo pensar que foi uma discussão em vão, sem sentido. Se existiu coisa que não faltou, foi sentido. E mais tarde não tentámos ser donas da razão, talvez fosse esse o motivo de nos magoar tanto o que aconteceu. Tínhamos lados contrários da culpa, mas com a mesma força, a mesma fúria. Foi uma noite que tentámos partilhar com quem nos faz a alma grande, mas no fundo, foi uma noite particularmente nossa. O meu caminho era igual ao teu. Tínhamos exactamente os mesmos calos, as mesmas horas sem dormir, os sacrifícios , o álcool no corpo, as mesmas frustrações, o mesmo êxtase. E quando me fui embora com elas e te deixei ali, nem toda a raiva do mundo me faria não voltar. Tive em mim aquele amor de sempre, de família, pela minha irmã que não era perfeita e que gostava de mim sem eu ser perfeita. Encontrei-te com os olhos todos esborratados de chorar. Ainda tentámos pôr os pontos nos is, mas sem sucesso, tentaste embebedar-me e demos um abraço. Depois deixei-te em casa, fiquei a ver-te lutar com a fechadura da porta até entrares e pensei «ainda bem que voltei».

sábado, 7 de abril de 2012

Post mortem

Foram só duas horas.E quando lhe agarrei no corpo ainda me sentiu a tocá-lo. Agarrei-lhe na cabeça, com o outro braço nas costas. Coloquei-o de lado, com a força que veio não sei de onde. Fiquei ali, à minha volta alguns tentavam aspirá-lo. Outros olhavam, à espera. Alguém perguntou se era para reanimar. Outros responderam que não com a cabeça. As mãos frias, a pele húmida, o corpo a ceder tão lentamente que parecia a vida toda. Deixei de o ver inspirar. Deixei de lhe sentir o pulso. E enquanto o corpo parava, deixei-o descansar de volta à posição original. Agarrei-lhe na mão, apertei com toda a força que me sobrava. E ele morria. Fechámos-lhe os olhos.

Toda a gente saiu do quarto. Desliguei as máquinas, ficámos em silêncio. Compus-lhe o cabelo. Olhei para o relógio que ele tinha no pulso. Que não parava. Pelo menos para mim, aquele relógio não parava. E ainda assim estava ali, na pele de um corpo parado. Já sem utilidade, o relógio, o corpo.

Lavei-o. Mudei-lhe os lençóis. Disse-lhe adeus,

sem nunca o ter conhecido.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Cá dentro,

não te vou dizer que não. Não te vou condenar pelo que comes a mais, ou se mentiste, omitiste. Não vou ficar a pensar se traíste alguém, alguma coisa ou tu próprio. Cá dentro eu não te vou proibir de fazer o que vais acabar por fazer na mesma. Não vou falar contigo como se a verdade fosse só minha, como se a razão me pertencesse. Aqui, sem ninguém saber, não vou julgar os teus segredos, não vou fazer birra porque os tens, sem eu saber quais são. Não te vou encher de perguntas, a menos que queiras que eu as faça. De vez a vez vou afagar-te o cabelo, mesmo quando magoaste alguém, mesmo que não estejas arrependido, mas a consciência te arranhe o corpo. Cá dentro, vou deixar-te falar da boca para fora, exagerar, explodir. Vou perdoar o teu mau feitio, os acessos de raiva e também a felicidade que for superior à minha. Vou ficar calada quando te ouvir falar mal de alguém, mesmo que tenhas razão, mesmo que não tenhas razão. Aqui dentro podes ser estranho, gostar de coisas esquisitas, repugnantes. Podes falar pouco, ser invejoso, não gostar de mim. Cá dentro de mim, sou anormalmente humana, mas ninguém sabe. E tu, também. E não tenho a pretensão de ser mais, basta-me que sejas o que realmente és.

Queria que fossemos todos mais humanos, mais básicos, mais condescendentes, mais verdadeiros. Connosco, para começar.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Quando o corpo deixa de saber estar num lugar. Quando já não se endireita, quando está menos alerta onde em tempos fervia. Quando quer ficar, mas tem medo de já não saber ficar.

Quando o corpo sonha que cai de carro pela serra. E rodopia em câmara lenta, para sentir tudo. A sensação de fim, de uma estranha resignação. E sem pânico. Porquê?

Deixa-me ir.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

"I lost my voice",

Era o que ela tinha escrito numa folha A4 branca, colada ao peito. Assim, perdoei a ausência do Olá. A ausência da formalidade dirigida ao cliente, a ritmada simpatia, a voz monótona que pergunta se preciso de um saco, que posso digitar o código, que me agradece no fim da compra. Foi tudo exactamente igual, mas sem palavras.

E fiquei com a folha A4 na cabeça. E comecei a desejar usar folhas A4 para o "Perdi a voz", ainda que consiga falar, "Perdi a paciência", mesmo que tenha de a ter, "Perdi a compostura", "Perdi a energia", "e a cabeça, e a vontade, e a mim", que me perdi. Só que depois não sobrava corpo sem papel, só os olhos a espreitar, sem quererem deixar de ver. E à minha volta perdoavam as ausências do que eu tinha perdido, sem sobrar nada. Não me exigiam, não me viviam. E eu perdoava o que à minha volta tinham perdido, e sem darmos conta ficávamos sozinhos, no respeito de ambas as perdas.

"I lost my voice", era o que ela tinha escrito numa folha A4 branca, colada ao peito. Mas não se foi embora. Ela sorriu em vez de falar. E o resto, o resto nós sabíamos responder.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

XV

Em quatro horas de sono, sonhei-te. Não me disseste nada de especial. Nunca me dizes quando sonho. Sabemos sempre o que aconteceu, mas nunca te pergunto. Abraço-te. Lembro-me de te abraçar muito, como a uma criança, agarrar-te na cara, nos caracóis e ter a ternura de quem sabe que já não existimos assim. Acho que estávamos em frente à sala dos moranguinhos, no Sebastião da Gama. Onde fomos crianças infinitamente. E ainda bem.

Passaram 7 meses. E foi ontem.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

XIV

Tínhamos dias em que chegávamos a casa e já nem nos conseguíamos ouvir uma à outra. Ficávamos cheias da falta de espaço, das horas que passávamos juntas. Ralhava-te com a razão de quem te queria descer à terra. Ralhavas-me com a razão de quem se permite sonhar. E chocávamos. Tive dias em que por minha vontade deixava-te onde quer que fosse. E sei que ficavas. Cheias de fogo, donas da razão.

Tínhamos dias em que as coisas só faziam sentido uma com a outra. Em que os outros eram demais para nós. Onde tínhamos medo, onde olhávamos de forma cúmplice uma para a outra quando ouvíamos as maiores barbaridades possíveis de alguém que não nos dizia muito.
Eu tinha dias em que questionava se as pessoas sabiam o quanto inteligente tu eras, já que tu não fazias questão de o demonstrar. Tinha dias em que sentia inveja da tua capacidade de ser o que te apetecia ser, por mais idiota que fosses parecer. Tinhas dias menos bons e ainda assim, nenhum deles com maldade, ou com orgulho. E eras tão fácil. De rir. De sorrir. De ti, e o quanto me ri contigo.
Não me sabias consolar. Nunca tiveste jeito para consolar ninguém. Nem a ti. Mas era esta insensibilidade que me fazia saber que eras real. Que nunca houve falsas palmadas nas costas. Nunca houve falsos abraços, falsas lágrimas.

E isto bastava-me na família que me eras. A família que não é perfeita. Que discute, que não concorda sempre. Que diz as coisas que aleijam o coração, sem o vir consolar, mas de propósito, para o levar à razão. Foste família que eu escolhi. A maior testemunha da minha vida. E eu sei de ti, quase tanto como tu sabias. E vou guardar-te.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Querido Pai Natal,

Diz-me, por favor, se vai ser sempre assim. Se vou desejar que o tempo corra sempre que se aproximar alguma coisa que antes me trazia alegria. Se vou querer fechar os olhos para ser Janeiro. Mas ainda for Dezembro. E depois se for Setembro, e quem sabe quando for Fevereiro.

Diz-me lá se correr por gosto afinal cansa. Se vale a pena.


Diz-me a verdade.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Bocados

Sou tantos bocados. Das pessoas à minha volta. Do que elas são. Do que me dizem, do que me pedem, do que me negam. Sou pedaços do que elas gostam, do que as inspira, do que as deita por terra.

Às vezes penso se serei só bocados, se não sobra alguma coisa só minha. Penso se sou apenas o que desejo parecer ser, ou se num infindável falhanço ainda sobra o que realmente sou.

Às vezes penso que sou só os bocados que eles não querem, mas na verdade sou os vários pedaços que eles não conseguem esconder. Sou os bocados que eles desejam ser, e de vez a vez, consigo ter bocados do que eles realmente são.

E acredito. Que sou a mistura inigualável destes bocados. E mesmo que não sobre nada meu. Não me sinto sozinha.

Eles, as pessoas à minha volta, também são retalhos dos outros, do que eles desejam ser, e, às vezes, pequenos remendos daquilo que eles realmente são. São misturas solúveis, às vezes insolúveis, mas únicas.

Somos espelhos a viver finitamente e a reproduzir o que agarramos dos outros. Esses outros, são espelhos a viver finitamente e a reproduzir o que agarram...dos outros.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

XIII

Chovia. E tínhamos só um guarda-chuva. Lembras-te do que lhe aconteceu? Não era grande coisa.

E fez-nos rir, enquanto procurávamos onde jantar, enquanto nos molhávamos de cima a baixo, enquanto corríamos o Porto ali para os lados da Sé. Faltou-me o fôlego algumas vezes: entre rir e correr e enfiar-me numa poça de água contigo.

Depois jantámos no restaurante mais escondido que podia existir, acho que nem consigo lá voltar, e com aquele encantamento do que é novo e aquela sensação inebriante, em parte pelo álcool, em parte pelo nervoso miudinho das entrevistas do dia a seguir. Lembro-me que bebemos Mateus Rosé e que tu comeste lulas. Não me lembro do que jantei.

Voltámos à residencial, novamente por baixo de chuva, e desta vez sem a capa de um dos meus saltos das botas, que tu conseguiste arrancar quando tropeçaste em mim. Ficámos noite fora a enrolar a língua para treinar o inglês e a desesperar por conhecer um futuro que nos mudaria a vida.

À meia noite, dia 6, fizeste 22 anos, ainda não tinha uma prenda para ti, mas eu sabia que nem era preciso. Tinhas escolhido passar o teu dia de anos ali, a lutar a medo, por um sonho. Escolheste fazê-lo comigo, e para mim, não haveria no mundo algo que fizesse mais sentido do que viver este momento contigo. Foi assim com tudo e ponho as mãos no fogo, em como tu sentias exactamente o mesmo que eu.

Adormecemos de televisão ligada. Dormimos mal, de corpo irrequieto. E acordámos cedo para o dia que finalmente separou o que a vida havia de nos trazer. Foi a primeira vez, desde sempre, que nos negaram uma jornada juntas. E nós sabíamos que algum dia assim teria de ser.

Telefonaste uma semana mais tarde, assim que recebeste a chamada. Não tinhas passado. E fomo-nos conformando. O plano era tentares mais tarde, eu ficava à tua espera.


Um ano depois, continuo à tua espera.


Fazias 23, eu ligava-te dentro de minutos. Chamavas-me "Babe" e riamos. Eu perguntava-te sobre há um ano atrás e tu lembravas toda a chuva e o guarda chuva partido. Dizia-te que gostava de estar em Azeitão para estar contigo e que a prenda tinha sido enviada pela minha mãe. Combinávamos ir ver Florence em Julho ao Optimus Alive. Despedias-te com uma arroba. Não te dizia que gostava de ti, tu sabias. E amanhã falava contigo.

Parabéns amiga.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Apagões

Gostava que fossemos como aqueles apagões. Quando falta a luz e até se ouve o mundo a desligar. Gostava que fossemos assim, que nos palpitasse o coração à procura de uma lanterna ou de uma vela e um fósforo. Gostava que fossemos como aquela incerteza do tempo que vai demorar até que a luz retorne, aquele desejo profundo que demore muito tempo, porque estamos bem assim. Gostava que ficássemos sem luz, que voltasse apenas quando precisássemos dos outros, para além de nós.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

XII

Penso em ti.

E às vezes imagino a tua reacção a coisas que eu te pudesse contar ou mostrar agora.

Ainda tenho a tua cara decorada, a tua expressão e o teu riso. E sou humana, faço perguntas.

"Porque é que foste tu?"

Estou cada vez mais inundada de coisas que só fazia sentido partilhar contigo. E só tu dizias "Tu sabes Laura...é aquela coisa".

E eu sabia, com o carinho de nos termos uma à outra como testemunha.

sábado, 5 de novembro de 2011

Perdemo-nos.

Quando tentamos ser aquilo que achamos que somos. E aquilo que gostávamos de ser. Quando dizemos as palavras que achamos que querem ouvir. Quando gesticulamos sozinhos, mas pensando que alguém pode estar a ver. Como em palco. Com audácia. Perdemo-nos. Quando dizemos que sim e queremos dizer que não. Quando controlamos o corpo extasiado de alegria, só porque não nos permitimos tê-la mais: a alegria. Quando olhamos para trás constantemente,com medo de perder a memória. E enganamo-nos. E perdemo-nos. De nós, e dos outros. Quando deixamos de conseguir estar sozinhos, por debaixo de uma vela, como agora.

Continuamos assim. Sempre à procura de alguma coisa. Do caminho de volta, por onde a chuva já desfez o trilho. E atravessam agora ervas daninhas difíceis de arrancar.

Todos os dias, sujar as mãos, arrancá-las. É-me suficiente. Não me encontro, mas não me sinto tão perdida.

sábado, 8 de outubro de 2011

XI

Fui à tua mãe,

Buscar coisas nossas que eram tuas e que agora passaram a ser minhas.

Apetecia-me abraça-la mais. Não sei o que é que se sente quando se põe 22 anos de "coisas" tuas dentro de um caixote. Quando só sobram "coisas", será que voltamos a abrir a caixa mais tarde? Será que o coração nos aguenta?

É que ainda tenho o teu nome na minha lista de contactos, e é só um número de telefone.

Ainda aqui estás.