sexta-feira, 22 de março de 2013

O muro estava pintado de branco



O muro estava pintado de branco, podia imaginar que não tinha sido pintado há muito tempo. A chuva arrastava a tinta para o meu vestido e as minhas mãos tremiam nas tuas. O teu casaco nos meus ombros fazia-me pensar nas regras do cavalheirismo e nas regras do corpo. O teu não era mais forte que o meu. E ainda assim, porque não podia ser de outra maneira, ofereceste-mo para cobrir os meus braços, deixando os teus ao frio.

Sorrias sempre depois de me dar um beijo na testa, no queixo, nos lábios. E eu já nem conseguia distinguir as gotas da chuva que desciam pela tua cara, das lágrimas que eram demasiado para os teus olhos. Às vezes apertavas-me o corpo, não posso dizer que me abraçavas. Apertavas com força e largavas tão rápido quanto a memória de que não me ias ter mais.

Eu passava a mão pelo teu cabelo molhado, parava no teu pescoço e ficava ali. Os meus olhos não te diziam  nada, a minha boca não te dizia nada. Não te apertei, não te mandei embora, não te deixei ficar. E como antes, voltaste a dizer que eu era fria. Que eu precisava ser mais humana.

Já sentia os pés molhados, e pensava, sem te dizer, que sou mais humana do que tu sabes.

Deste um beijo nos nós das minhas mãos e foste embora. Fiquei a ver-te andar. Sem nunca correr atrás de ti. Sentei-me no muro que era branco. Ninguém passava àquela hora. E acabei por vir parar aqui.


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