quinta-feira, 10 de maio de 2012

XVI

Pergunto-me como é que seria. Há dois anos fomos protagonistas daquela cena de filme da nossa queima das fitas. Não consigo pensar que foi uma discussão em vão, sem sentido. Se existiu coisa que não faltou, foi sentido. E mais tarde não tentámos ser donas da razão, talvez fosse esse o motivo de nos magoar tanto o que aconteceu. Tínhamos lados contrários da culpa, mas com a mesma força, a mesma fúria. Foi uma noite que tentámos partilhar com quem nos faz a alma grande, mas no fundo, foi uma noite particularmente nossa. O meu caminho era igual ao teu. Tínhamos exactamente os mesmos calos, as mesmas horas sem dormir, os sacrifícios , o álcool no corpo, as mesmas frustrações, o mesmo êxtase. E quando me fui embora com elas e te deixei ali, nem toda a raiva do mundo me faria não voltar. Tive em mim aquele amor de sempre, de família, pela minha irmã que não era perfeita e que gostava de mim sem eu ser perfeita. Encontrei-te com os olhos todos esborratados de chorar. Ainda tentámos pôr os pontos nos is, mas sem sucesso, tentaste embebedar-me e demos um abraço. Depois deixei-te em casa, fiquei a ver-te lutar com a fechadura da porta até entrares e pensei «ainda bem que voltei».

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