Zanguei-me. E fiquei assim, zangada. Não sei o que mordeu, o que é que me afincou os dentes. E por isso, não sei deixar ir, perdoar. Olhei à minha volta, procurando entre o céu azul, as montanhas e os prédios. Não foi a falta do sol, não foi o excesso. Não foi a tua falta. A falta deles, da mãe, do pai. Também não foi o excesso. Não foi de não querer ou de querer demasiado. Não foi do anti-rugas, não foram as vitaminas.
Sobra apenas o mais irremediável, a dentada mais difícil de sarar. Sobro Eu.
Tirando roer as unhas, morder o interior dos lábios, cortar os dedos a cozinhar e fazer nódoas negras de bater em toda a parte, já não sou capaz de me aleijar. Já não consigo apagar cigarros na própria mão. Agora que me acho muito mais crescida, a única coisa que faço é procurar tréguas, declarar paz comigo mesma. Dispo-me dos outros mais vezes, obrigo-me a conversar comigo, a abraçar-me de vez em quando. E podia dirfarçar, dizer-me bem sucedida. Mas estou pesada para mim mesma. Pesada para os outros. Sou a má companhia de mim mesma.
Continuo a pintar telas, a afundar-me em ficções no meu computador, a ler histórias em papel, a cuidar dos meus doentes. À espera. Tão desesperadamente, tão discretamente à espera. Que esta raiva acabe.
"Já não sei o que te dizer. Estás sempre tão zangada. Não faças essa cara." diz a mãe à despedida.
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