quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

XIV

Tínhamos dias em que chegávamos a casa e já nem nos conseguíamos ouvir uma à outra. Ficávamos cheias da falta de espaço, das horas que passávamos juntas. Ralhava-te com a razão de quem te queria descer à terra. Ralhavas-me com a razão de quem se permite sonhar. E chocávamos. Tive dias em que por minha vontade deixava-te onde quer que fosse. E sei que ficavas. Cheias de fogo, donas da razão.

Tínhamos dias em que as coisas só faziam sentido uma com a outra. Em que os outros eram demais para nós. Onde tínhamos medo, onde olhávamos de forma cúmplice uma para a outra quando ouvíamos as maiores barbaridades possíveis de alguém que não nos dizia muito.
Eu tinha dias em que questionava se as pessoas sabiam o quanto inteligente tu eras, já que tu não fazias questão de o demonstrar. Tinha dias em que sentia inveja da tua capacidade de ser o que te apetecia ser, por mais idiota que fosses parecer. Tinhas dias menos bons e ainda assim, nenhum deles com maldade, ou com orgulho. E eras tão fácil. De rir. De sorrir. De ti, e o quanto me ri contigo.
Não me sabias consolar. Nunca tiveste jeito para consolar ninguém. Nem a ti. Mas era esta insensibilidade que me fazia saber que eras real. Que nunca houve falsas palmadas nas costas. Nunca houve falsos abraços, falsas lágrimas.

E isto bastava-me na família que me eras. A família que não é perfeita. Que discute, que não concorda sempre. Que diz as coisas que aleijam o coração, sem o vir consolar, mas de propósito, para o levar à razão. Foste família que eu escolhi. A maior testemunha da minha vida. E eu sei de ti, quase tanto como tu sabias. E vou guardar-te.

Sem comentários: