Era o que ela tinha escrito numa folha A4 branca, colada ao peito. Assim, perdoei a ausência do Olá. A ausência da formalidade dirigida ao cliente, a ritmada simpatia, a voz monótona que pergunta se preciso de um saco, que posso digitar o código, que me agradece no fim da compra. Foi tudo exactamente igual, mas sem palavras.
E fiquei com a folha A4 na cabeça. E comecei a desejar usar folhas A4 para o "Perdi a voz", ainda que consiga falar, "Perdi a paciência", mesmo que tenha de a ter, "Perdi a compostura", "Perdi a energia", "e a cabeça, e a vontade, e a mim", que me perdi. Só que depois não sobrava corpo sem papel, só os olhos a espreitar, sem quererem deixar de ver. E à minha volta perdoavam as ausências do que eu tinha perdido, sem sobrar nada. Não me exigiam, não me viviam. E eu perdoava o que à minha volta tinham perdido, e sem darmos conta ficávamos sozinhos, no respeito de ambas as perdas.
"I lost my voice", era o que ela tinha escrito numa folha A4 branca, colada ao peito. Mas não se foi embora. Ela sorriu em vez de falar. E o resto, o resto nós sabíamos responder.
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