Tens de admitir, faltava-te um bocado de classe de vez em quando. E agora sim, posso dizer-te, que inveja. Na tua falta de classe estava a falta de pudor, a falta da vergonha, a falta do medo, a falta de pensar naquilo que outros podiam achar de ti. Eras tão fácil de gostar. E aqueles que nunca conseguiram chegar àquilo que realmente eras foi apenas porque nunca te esforçaste por agradar. Ofereceste sempre primeiro o teu lado desajeitado, a tua forma leviana de falar de sexo, a tua inércia. A quem conquistavas mesmo assim, oferecias uma lealdade sem fim, uma intimidade sem julgamentos, uma loucura inata por filmes, imagens e palavras bonitas. Oferecias mais, uma imensa falta de pretensões. O que era, era. E por fim, guardavas em ti os segredos que eram só teus. Nunca me incomodou que os tivesses. Deixava-nos à altura. Há coisas que ninguém tem de saber para além de nós. Há coisas que nos fazem corar por dentro só de pensar, e que nunca vamos deixar de fazer e sentir porque somos só humanos, somos animais.
Vezes sem conta, fazes-me falta. E eu sei que te faço falta. Desde que caímos naquele baloiço. Fico à espera, não de te substituir, mas de encontrar alguém com tantas falhas e lascas, como tu, como eu.
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