Chovia. E tínhamos só um guarda-chuva. Lembras-te do que lhe aconteceu? Não era grande coisa.
E fez-nos rir, enquanto procurávamos onde jantar, enquanto nos molhávamos de cima a baixo, enquanto corríamos o Porto ali para os lados da Sé. Faltou-me o fôlego algumas vezes: entre rir e correr e enfiar-me numa poça de água contigo.
Depois jantámos no restaurante mais escondido que podia existir, acho que nem consigo lá voltar, e com aquele encantamento do que é novo e aquela sensação inebriante, em parte pelo álcool, em parte pelo nervoso miudinho das entrevistas do dia a seguir. Lembro-me que bebemos Mateus Rosé e que tu comeste lulas. Não me lembro do que jantei.
Voltámos à residencial, novamente por baixo de chuva, e desta vez sem a capa de um dos meus saltos das botas, que tu conseguiste arrancar quando tropeçaste em mim. Ficámos noite fora a enrolar a língua para treinar o inglês e a desesperar por conhecer um futuro que nos mudaria a vida.
À meia noite, dia 6, fizeste 22 anos, ainda não tinha uma prenda para ti, mas eu sabia que nem era preciso. Tinhas escolhido passar o teu dia de anos ali, a lutar a medo, por um sonho. Escolheste fazê-lo comigo, e para mim, não haveria no mundo algo que fizesse mais sentido do que viver este momento contigo. Foi assim com tudo e ponho as mãos no fogo, em como tu sentias exactamente o mesmo que eu.
Adormecemos de televisão ligada. Dormimos mal, de corpo irrequieto. E acordámos cedo para o dia que finalmente separou o que a vida havia de nos trazer. Foi a primeira vez, desde sempre, que nos negaram uma jornada juntas. E nós sabíamos que algum dia assim teria de ser.
Telefonaste uma semana mais tarde, assim que recebeste a chamada. Não tinhas passado. E fomo-nos conformando. O plano era tentares mais tarde, eu ficava à tua espera.
Um ano depois, continuo à tua espera.
Fazias 23, eu ligava-te dentro de minutos. Chamavas-me "Babe" e riamos. Eu perguntava-te sobre há um ano atrás e tu lembravas toda a chuva e o guarda chuva partido. Dizia-te que gostava de estar em Azeitão para estar contigo e que a prenda tinha sido enviada pela minha mãe. Combinávamos ir ver Florence em Julho ao Optimus Alive. Despedias-te com uma arroba. Não te dizia que gostava de ti, tu sabias. E amanhã falava contigo.
Parabéns amiga.
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