Foram só duas horas.E quando lhe agarrei no corpo ainda me sentiu a tocá-lo. Agarrei-lhe na cabeça, com o outro braço nas costas. Coloquei-o de lado, com a força que veio não sei de onde. Fiquei ali, à minha volta alguns tentavam aspirá-lo. Outros olhavam, à espera. Alguém perguntou se era para reanimar. Outros responderam que não com a cabeça. As mãos frias, a pele húmida, o corpo a ceder tão lentamente que parecia a vida toda. Deixei de o ver inspirar. Deixei de lhe sentir o pulso. E enquanto o corpo parava, deixei-o descansar de volta à posição original. Agarrei-lhe na mão, apertei com toda a força que me sobrava. E ele morria. Fechámos-lhe os olhos.
Toda a gente saiu do quarto. Desliguei as máquinas, ficámos em silêncio. Compus-lhe o cabelo. Olhei para o relógio que ele tinha no pulso. Que não parava. Pelo menos para mim, aquele relógio não parava. E ainda assim estava ali, na pele de um corpo parado. Já sem utilidade, o relógio, o corpo.
Lavei-o. Mudei-lhe os lençóis. Disse-lhe adeus,
sem nunca o ter conhecido.
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