Diz-me, por favor, se vai ser sempre assim. Se vou desejar que o tempo corra sempre que se aproximar alguma coisa que antes me trazia alegria. Se vou querer fechar os olhos para ser Janeiro. Mas ainda for Dezembro. E depois se for Setembro, e quem sabe quando for Fevereiro.
Diz-me lá se correr por gosto afinal cansa. Se vale a pena.
Diz-me a verdade.
domingo, 25 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Bocados
Sou tantos bocados. Das pessoas à minha volta. Do que elas são. Do que me dizem, do que me pedem, do que me negam. Sou pedaços do que elas gostam, do que as inspira, do que as deita por terra.
Às vezes penso se serei só bocados, se não sobra alguma coisa só minha. Penso se sou apenas o que desejo parecer ser, ou se num infindável falhanço ainda sobra o que realmente sou.
Às vezes penso que sou só os bocados que eles não querem, mas na verdade sou os vários pedaços que eles não conseguem esconder. Sou os bocados que eles desejam ser, e de vez a vez, consigo ter bocados do que eles realmente são.
E acredito. Que sou a mistura inigualável destes bocados. E mesmo que não sobre nada meu. Não me sinto sozinha.
Eles, as pessoas à minha volta, também são retalhos dos outros, do que eles desejam ser, e, às vezes, pequenos remendos daquilo que eles realmente são. São misturas solúveis, às vezes insolúveis, mas únicas.
Somos espelhos a viver finitamente e a reproduzir o que agarramos dos outros. Esses outros, são espelhos a viver finitamente e a reproduzir o que agarram...dos outros.
Às vezes penso se serei só bocados, se não sobra alguma coisa só minha. Penso se sou apenas o que desejo parecer ser, ou se num infindável falhanço ainda sobra o que realmente sou.
Às vezes penso que sou só os bocados que eles não querem, mas na verdade sou os vários pedaços que eles não conseguem esconder. Sou os bocados que eles desejam ser, e de vez a vez, consigo ter bocados do que eles realmente são.
E acredito. Que sou a mistura inigualável destes bocados. E mesmo que não sobre nada meu. Não me sinto sozinha.
Eles, as pessoas à minha volta, também são retalhos dos outros, do que eles desejam ser, e, às vezes, pequenos remendos daquilo que eles realmente são. São misturas solúveis, às vezes insolúveis, mas únicas.
Somos espelhos a viver finitamente e a reproduzir o que agarramos dos outros. Esses outros, são espelhos a viver finitamente e a reproduzir o que agarram...dos outros.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
XIII
Chovia. E tínhamos só um guarda-chuva. Lembras-te do que lhe aconteceu? Não era grande coisa.
E fez-nos rir, enquanto procurávamos onde jantar, enquanto nos molhávamos de cima a baixo, enquanto corríamos o Porto ali para os lados da Sé. Faltou-me o fôlego algumas vezes: entre rir e correr e enfiar-me numa poça de água contigo.
Depois jantámos no restaurante mais escondido que podia existir, acho que nem consigo lá voltar, e com aquele encantamento do que é novo e aquela sensação inebriante, em parte pelo álcool, em parte pelo nervoso miudinho das entrevistas do dia a seguir. Lembro-me que bebemos Mateus Rosé e que tu comeste lulas. Não me lembro do que jantei.
Voltámos à residencial, novamente por baixo de chuva, e desta vez sem a capa de um dos meus saltos das botas, que tu conseguiste arrancar quando tropeçaste em mim. Ficámos noite fora a enrolar a língua para treinar o inglês e a desesperar por conhecer um futuro que nos mudaria a vida.
À meia noite, dia 6, fizeste 22 anos, ainda não tinha uma prenda para ti, mas eu sabia que nem era preciso. Tinhas escolhido passar o teu dia de anos ali, a lutar a medo, por um sonho. Escolheste fazê-lo comigo, e para mim, não haveria no mundo algo que fizesse mais sentido do que viver este momento contigo. Foi assim com tudo e ponho as mãos no fogo, em como tu sentias exactamente o mesmo que eu.
Adormecemos de televisão ligada. Dormimos mal, de corpo irrequieto. E acordámos cedo para o dia que finalmente separou o que a vida havia de nos trazer. Foi a primeira vez, desde sempre, que nos negaram uma jornada juntas. E nós sabíamos que algum dia assim teria de ser.
Telefonaste uma semana mais tarde, assim que recebeste a chamada. Não tinhas passado. E fomo-nos conformando. O plano era tentares mais tarde, eu ficava à tua espera.
Um ano depois, continuo à tua espera.
Fazias 23, eu ligava-te dentro de minutos. Chamavas-me "Babe" e riamos. Eu perguntava-te sobre há um ano atrás e tu lembravas toda a chuva e o guarda chuva partido. Dizia-te que gostava de estar em Azeitão para estar contigo e que a prenda tinha sido enviada pela minha mãe. Combinávamos ir ver Florence em Julho ao Optimus Alive. Despedias-te com uma arroba. Não te dizia que gostava de ti, tu sabias. E amanhã falava contigo.
Parabéns amiga.
E fez-nos rir, enquanto procurávamos onde jantar, enquanto nos molhávamos de cima a baixo, enquanto corríamos o Porto ali para os lados da Sé. Faltou-me o fôlego algumas vezes: entre rir e correr e enfiar-me numa poça de água contigo.
Depois jantámos no restaurante mais escondido que podia existir, acho que nem consigo lá voltar, e com aquele encantamento do que é novo e aquela sensação inebriante, em parte pelo álcool, em parte pelo nervoso miudinho das entrevistas do dia a seguir. Lembro-me que bebemos Mateus Rosé e que tu comeste lulas. Não me lembro do que jantei.
Voltámos à residencial, novamente por baixo de chuva, e desta vez sem a capa de um dos meus saltos das botas, que tu conseguiste arrancar quando tropeçaste em mim. Ficámos noite fora a enrolar a língua para treinar o inglês e a desesperar por conhecer um futuro que nos mudaria a vida.
À meia noite, dia 6, fizeste 22 anos, ainda não tinha uma prenda para ti, mas eu sabia que nem era preciso. Tinhas escolhido passar o teu dia de anos ali, a lutar a medo, por um sonho. Escolheste fazê-lo comigo, e para mim, não haveria no mundo algo que fizesse mais sentido do que viver este momento contigo. Foi assim com tudo e ponho as mãos no fogo, em como tu sentias exactamente o mesmo que eu.
Adormecemos de televisão ligada. Dormimos mal, de corpo irrequieto. E acordámos cedo para o dia que finalmente separou o que a vida havia de nos trazer. Foi a primeira vez, desde sempre, que nos negaram uma jornada juntas. E nós sabíamos que algum dia assim teria de ser.
Telefonaste uma semana mais tarde, assim que recebeste a chamada. Não tinhas passado. E fomo-nos conformando. O plano era tentares mais tarde, eu ficava à tua espera.
Um ano depois, continuo à tua espera.
Fazias 23, eu ligava-te dentro de minutos. Chamavas-me "Babe" e riamos. Eu perguntava-te sobre há um ano atrás e tu lembravas toda a chuva e o guarda chuva partido. Dizia-te que gostava de estar em Azeitão para estar contigo e que a prenda tinha sido enviada pela minha mãe. Combinávamos ir ver Florence em Julho ao Optimus Alive. Despedias-te com uma arroba. Não te dizia que gostava de ti, tu sabias. E amanhã falava contigo.
Parabéns amiga.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Apagões
Gostava que fossemos como aqueles apagões. Quando falta a luz e até se ouve o mundo a desligar. Gostava que fossemos assim, que nos palpitasse o coração à procura de uma lanterna ou de uma vela e um fósforo. Gostava que fossemos como aquela incerteza do tempo que vai demorar até que a luz retorne, aquele desejo profundo que demore muito tempo, porque estamos bem assim. Gostava que ficássemos sem luz, que voltasse apenas quando precisássemos dos outros, para além de nós.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
XII
Penso em ti.
E às vezes imagino a tua reacção a coisas que eu te pudesse contar ou mostrar agora.
Ainda tenho a tua cara decorada, a tua expressão e o teu riso. E sou humana, faço perguntas.
"Porque é que foste tu?"
Estou cada vez mais inundada de coisas que só fazia sentido partilhar contigo. E só tu dizias "Tu sabes Laura...é aquela coisa".
E eu sabia, com o carinho de nos termos uma à outra como testemunha.
E às vezes imagino a tua reacção a coisas que eu te pudesse contar ou mostrar agora.
Ainda tenho a tua cara decorada, a tua expressão e o teu riso. E sou humana, faço perguntas.
"Porque é que foste tu?"
Estou cada vez mais inundada de coisas que só fazia sentido partilhar contigo. E só tu dizias "Tu sabes Laura...é aquela coisa".
E eu sabia, com o carinho de nos termos uma à outra como testemunha.
sábado, 5 de novembro de 2011
Perdemo-nos.
Quando tentamos ser aquilo que achamos que somos. E aquilo que gostávamos de ser. Quando dizemos as palavras que achamos que querem ouvir. Quando gesticulamos sozinhos, mas pensando que alguém pode estar a ver. Como em palco. Com audácia. Perdemo-nos. Quando dizemos que sim e queremos dizer que não. Quando controlamos o corpo extasiado de alegria, só porque não nos permitimos tê-la mais: a alegria. Quando olhamos para trás constantemente,com medo de perder a memória. E enganamo-nos. E perdemo-nos. De nós, e dos outros. Quando deixamos de conseguir estar sozinhos, por debaixo de uma vela, como agora.
Continuamos assim. Sempre à procura de alguma coisa. Do caminho de volta, por onde a chuva já desfez o trilho. E atravessam agora ervas daninhas difíceis de arrancar.
Todos os dias, sujar as mãos, arrancá-las. É-me suficiente. Não me encontro, mas não me sinto tão perdida.
Continuamos assim. Sempre à procura de alguma coisa. Do caminho de volta, por onde a chuva já desfez o trilho. E atravessam agora ervas daninhas difíceis de arrancar.
Todos os dias, sujar as mãos, arrancá-las. É-me suficiente. Não me encontro, mas não me sinto tão perdida.
sábado, 8 de outubro de 2011
XI
Fui à tua mãe,
Buscar coisas nossas que eram tuas e que agora passaram a ser minhas.
Apetecia-me abraça-la mais. Não sei o que é que se sente quando se põe 22 anos de "coisas" tuas dentro de um caixote. Quando só sobram "coisas", será que voltamos a abrir a caixa mais tarde? Será que o coração nos aguenta?
É que ainda tenho o teu nome na minha lista de contactos, e é só um número de telefone.
Ainda aqui estás.
Buscar coisas nossas que eram tuas e que agora passaram a ser minhas.
Apetecia-me abraça-la mais. Não sei o que é que se sente quando se põe 22 anos de "coisas" tuas dentro de um caixote. Quando só sobram "coisas", será que voltamos a abrir a caixa mais tarde? Será que o coração nos aguenta?
É que ainda tenho o teu nome na minha lista de contactos, e é só um número de telefone.
Ainda aqui estás.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Terraço
Fomos tantas vezes àquele baile, o que tinha o terraço grande.
Metade das vezes quiseste dançar comigo. Na outra metade dancei contigo. Mas ver-te ali sentado, a saber que o teu coração pulsava mais rápido só de olhar para mim, fazia-me pensar que tinha nascido para me veres. E era sempre assim. Mesmo ao fim de tantas valsas, eu sentia-te assim. As mesmas mãos tremidas só de me tocar. As palavras que não saíam, ou se saíam, eram trocadas. O teu riso tímido, de dentes escondidos. O respeito nos teus olhos, no espaço entre os nossos corpos mesmo quando se tocavam para dançar.
Gostava de pousar o meu queixo no teu ombro, deixar-te guiar os meus pés. E depois acho que deixei que me guiasses a vida.
Não sinto vergonha. Naquela altura os homens guiavam-nos a vida. Precisavam ser muito especiais, as mulheres, para ganhar voz, conquistar mundos. E eu não era assim. Não conheci pessoalmente alguém que fosse assim. O mundo que me interessava conquistar era o nosso. Onde tu e eu éramos o que quiséssemos, um com o outro e às vezes separados. Interessava-me conquistar-te todos os dias, dançar contigo todos os dias, contar contigo todos os dias. Até naqueles em que não te queria, que me queria só a mim, sozinha. Interessava-me tudo de igual para igual, num mundo que era desigual por si só, para mim, que era mulher, para ti, que eras homem. Não me interessava o que os outros pensavam, e por mim, eu podia ser o que eles quisessem que eu fosse: na sua forma de pensar. Nunca precisei de lhes dizer que também cozinhavas, que lavavas a loiça. Nunca fiz questão de te pavonear, de exibir o respeito que tinhas por mim. Bastava-me senti-lo, honrá-lo com respeito reciproco.
Agora olho para ti, aqui no terraço onde acabámos por pôr um banco de madeira. Na casa onde se davam os nossos bailes, com as mesmas heras que ainda crescem pela parede e onde acabámos por vir morar. Já arrastas uma perna quando andas e demoras a chegar ao pé de mim. Sentas-te e consigo cheirar a água de colónia que usas desde há uns anos. A tua pele tem rugas, as tuas mãos são agora ásperas. O meu cabelo é branco. Ainda temos assunto de conversa, falamos a tarde toda. E depois é hora de jantar, levanto-me. A caminho da cozinha seguras o meu braço, impedes-me de andar e começas a dançar comigo, em silêncio. Os nossos pés já não se mexem muito, mas o nosso corpo baloiça lentamente, para um lado, e depois para o outro. Pouso o meu queixo no teu ombro e sinto o teu coração pulsar como há 40 anos.
Nessa altura, lembro-me de encostares a tua boca ao meu ouvido e dizer:"Era capaz de ficar aqui a vida toda".
E agora apercebo-me que ficámos.
Metade das vezes quiseste dançar comigo. Na outra metade dancei contigo. Mas ver-te ali sentado, a saber que o teu coração pulsava mais rápido só de olhar para mim, fazia-me pensar que tinha nascido para me veres. E era sempre assim. Mesmo ao fim de tantas valsas, eu sentia-te assim. As mesmas mãos tremidas só de me tocar. As palavras que não saíam, ou se saíam, eram trocadas. O teu riso tímido, de dentes escondidos. O respeito nos teus olhos, no espaço entre os nossos corpos mesmo quando se tocavam para dançar.
Gostava de pousar o meu queixo no teu ombro, deixar-te guiar os meus pés. E depois acho que deixei que me guiasses a vida.
Não sinto vergonha. Naquela altura os homens guiavam-nos a vida. Precisavam ser muito especiais, as mulheres, para ganhar voz, conquistar mundos. E eu não era assim. Não conheci pessoalmente alguém que fosse assim. O mundo que me interessava conquistar era o nosso. Onde tu e eu éramos o que quiséssemos, um com o outro e às vezes separados. Interessava-me conquistar-te todos os dias, dançar contigo todos os dias, contar contigo todos os dias. Até naqueles em que não te queria, que me queria só a mim, sozinha. Interessava-me tudo de igual para igual, num mundo que era desigual por si só, para mim, que era mulher, para ti, que eras homem. Não me interessava o que os outros pensavam, e por mim, eu podia ser o que eles quisessem que eu fosse: na sua forma de pensar. Nunca precisei de lhes dizer que também cozinhavas, que lavavas a loiça. Nunca fiz questão de te pavonear, de exibir o respeito que tinhas por mim. Bastava-me senti-lo, honrá-lo com respeito reciproco.
Agora olho para ti, aqui no terraço onde acabámos por pôr um banco de madeira. Na casa onde se davam os nossos bailes, com as mesmas heras que ainda crescem pela parede e onde acabámos por vir morar. Já arrastas uma perna quando andas e demoras a chegar ao pé de mim. Sentas-te e consigo cheirar a água de colónia que usas desde há uns anos. A tua pele tem rugas, as tuas mãos são agora ásperas. O meu cabelo é branco. Ainda temos assunto de conversa, falamos a tarde toda. E depois é hora de jantar, levanto-me. A caminho da cozinha seguras o meu braço, impedes-me de andar e começas a dançar comigo, em silêncio. Os nossos pés já não se mexem muito, mas o nosso corpo baloiça lentamente, para um lado, e depois para o outro. Pouso o meu queixo no teu ombro e sinto o teu coração pulsar como há 40 anos.
Nessa altura, lembro-me de encostares a tua boca ao meu ouvido e dizer:"Era capaz de ficar aqui a vida toda".
E agora apercebo-me que ficámos.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
X
Este ano,
O que nós perdemos.
Uma à outra.
Eu perdi a frequência dos outros.
Tu perdeste a frequência de tudo.
Eu perdi um Verão.
Tu perdeste as estações.
Eu perdi a vontade.
Tu perdeste a vida.
E eu ainda não sei acreditar que vou viver com saudades tuas para o resto da minha vida.
O que nós perdemos.
Uma à outra.
Eu perdi a frequência dos outros.
Tu perdeste a frequência de tudo.
Eu perdi um Verão.
Tu perdeste as estações.
Eu perdi a vontade.
Tu perdeste a vida.
E eu ainda não sei acreditar que vou viver com saudades tuas para o resto da minha vida.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
IX
Lembras-te como é que explicávamos o conteúdo de uma coisa a alguém que não o entendia?
Olhávamos uma para a outra, impotentes, e pensávamos sem precisar falar: "Como é que é possível?".
E nem nunca nos sentimos mais por isso. Na maioria das vezes ficámos tristes.
Mas ao menos, tínhamos o conforto uma da outra. Eu sabia que tu encontravas conteúdo até nas coisas mais insignificantes que eu te pudesse mostrar. Até na cena daquele filme que quase ninguém gostava. Naquela música estranha que ninguém ouvia. Na fotografia que tu tiravas. Naquele momento que era só mais um.
E quando me aconselhavas alguma coisa, era a primeira que eu ia ver. Quando dizias não valer a pena, a minha vontade esmorecia.
Quando digo que tenho saudades tuas, não são só saudades de quando existias. São saudades da tua forma de pensar, daquilo que tu fazias e de como fazias. Saudades do que eu podia ser contigo. E tu, que podias ser o que quisesses comigo.
Olhávamos uma para a outra, impotentes, e pensávamos sem precisar falar: "Como é que é possível?".
E nem nunca nos sentimos mais por isso. Na maioria das vezes ficámos tristes.
Mas ao menos, tínhamos o conforto uma da outra. Eu sabia que tu encontravas conteúdo até nas coisas mais insignificantes que eu te pudesse mostrar. Até na cena daquele filme que quase ninguém gostava. Naquela música estranha que ninguém ouvia. Na fotografia que tu tiravas. Naquele momento que era só mais um.
E quando me aconselhavas alguma coisa, era a primeira que eu ia ver. Quando dizias não valer a pena, a minha vontade esmorecia.
Quando digo que tenho saudades tuas, não são só saudades de quando existias. São saudades da tua forma de pensar, daquilo que tu fazias e de como fazias. Saudades do que eu podia ser contigo. E tu, que podias ser o que quisesses comigo.
domingo, 21 de agosto de 2011
Mas penso,
Não fiquei à espera de nada. Não quis mais nada.
Mas penso.
Que amor é este que nos assola agora? Parece um amor com prazo de validade. O meu acabou. Nunca o mandei embora. O teu foi por ti recusado, passou do prazo.
E já não lutamos mais. Já não nos chegamos ao ouvido para dizer: "Não, não vais a lado nenhum. Eu estou aqui sempre. Eu fico aqui para sempre."
Já só nos deixamos ficar por nós. Cada um em si, e lamentamos. Podemos até chorar, dar uns murros na parede, magoar o corpo que nem tem culpa nenhuma.
Mas depois, ele vai-se embora.
Mandaste-o embora.
E a rapidez. A perfeita rapidez com que ele volta, cheio de tudo mais uma vez. De palavras, de metáforas. O amor de outra pessoa.
E penso: "Ainda bem que o meu acabou. O teu não era assim tão grande. Assim tão exclusivo."
E não quero mesmo nada. Mas tenho pena do amor.
Mas penso.
Que amor é este que nos assola agora? Parece um amor com prazo de validade. O meu acabou. Nunca o mandei embora. O teu foi por ti recusado, passou do prazo.
E já não lutamos mais. Já não nos chegamos ao ouvido para dizer: "Não, não vais a lado nenhum. Eu estou aqui sempre. Eu fico aqui para sempre."
Já só nos deixamos ficar por nós. Cada um em si, e lamentamos. Podemos até chorar, dar uns murros na parede, magoar o corpo que nem tem culpa nenhuma.
Mas depois, ele vai-se embora.
Mandaste-o embora.
E a rapidez. A perfeita rapidez com que ele volta, cheio de tudo mais uma vez. De palavras, de metáforas. O amor de outra pessoa.
E penso: "Ainda bem que o meu acabou. O teu não era assim tão grande. Assim tão exclusivo."
E não quero mesmo nada. Mas tenho pena do amor.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Onde?
De onde é que vem esta capacidade para aguentarmos tudo? Para quem aguenta.
De onde é que vem este medo incontrariável de fugir à regra? Para quem não foge.
De onde é que vem esta força? E esta calma. E esta resignação.
De onde é que vens que não chegas nunca?
De onde é que vem este medo incontrariável de fugir à regra? Para quem não foge.
De onde é que vem esta força? E esta calma. E esta resignação.
De onde é que vens que não chegas nunca?
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Sabes
Sabes qual é o meu problema?
Qual é o teu problema?
Bem, mais um dos meus problemas.
Mais um dos teus problemas...
Não sei começar nada sem pensar e tentar prever como vai acabar.
Isso é bom. És prevenida.
Sou. Mas pior que isso.
O quê?
É que isto significa que para mim tudo acaba.
Tu sempre soubeste.
Sim, mas...
..Mas agora deixaste de começar.
Mas agora deixei de começar.
Qual é o teu problema?
Bem, mais um dos meus problemas.
Mais um dos teus problemas...
Não sei começar nada sem pensar e tentar prever como vai acabar.
Isso é bom. És prevenida.
Sou. Mas pior que isso.
O quê?
É que isto significa que para mim tudo acaba.
Tu sempre soubeste.
Sim, mas...
..Mas agora deixaste de começar.
Mas agora deixei de começar.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
VIII
Não te esqueço. Faço-o por momentos ao longo dos dias, mas não esqueço. Já nem sei arranjar maneira de te afastar umas horas. Estás nas coisas que vou fazendo, nas que eu gostava de te contar. Estás nos planos que eu tenho e naquilo que sinto todos os dias com pessoas a morrerem mais um bocadinho à minha frente. Estás nas lágrimas que eu já não tenho e precisava libertar, na esperança que com elas saísse também este coração acelerado por não dar mais. Estás em mim quando eu penso que estou mal e sou injusta contigo porque tu nem sequer estás.
Estás comigo e eu não te deixo ir embora. Vou aprender a estar contigo, sem estares. Um dia.
Estás comigo e eu não te deixo ir embora. Vou aprender a estar contigo, sem estares. Um dia.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
VII
Hoje embalei-me num comboio e vieste comigo o caminho todo. Veio-me à boca o sabor amargo do café das quatro e cinco da manhã quando estudávamos até ser dia. Quando parecíamos não dormir e comer há uma semana e a minha mãe descia as escadas e fazia o pequeno-almoço. Lembro-me de como punhas o cabelo, de não precisares de usar base para estar comigo e das camisolas que já não usavas fora de casa. Lembro-me de acharmos que não aguentávamos mais e no fim, aguentávamos sempre mais um bocadinho. E às vezes adormecemos. Avisaste-me que o sofá não era o sítio ideal para pegar em livros. Lá te convenci e lá adormecemos sem adormecer realmente. Ficámos a falar uma para a outra de olhos fichados. E será que foi assim? Será que foi assim que chegámos tão longe? A pegar nos livros sempre mais tarde do que devíamos e sempre a chegar a um ponto de confusão mental entre a realidade do acordar e a memória de estar a dormir? Não sei.
O combinado era podermos recordar estas nossas insanidades pela vida fora. Ir lembrando estas peripécias uma com a outra, ou contando-as a quem nos fizesse sentido. O combinado era estares aqui. Tenho memórias a mais para um corpo só. Tenho memórias a mais se não as partilhar contigo. Sinto a minha respiração pesar.
O combinado era podermos recordar estas nossas insanidades pela vida fora. Ir lembrando estas peripécias uma com a outra, ou contando-as a quem nos fizesse sentido. O combinado era estares aqui. Tenho memórias a mais para um corpo só. Tenho memórias a mais se não as partilhar contigo. Sinto a minha respiração pesar.
domingo, 7 de agosto de 2011
Versus
Quero o mais simples. Um copo de leite branco frio, e acordar a ser a mesma. Quero dias semelhantes e o conforto do mesmo abraço, do mesmo sexo. Quero a mesa posta sem formalidades num campo qualquer, a ouvir latir os cães, conversas com compaixão, com odor a família. Ser pouco, mas ser grande, ter pouco, sem precisar de mais. Quero ter tudo, desejando sempre pouco, contentando-me com os pés na areia fria daquelas praias. Ter a coragem de rir alto, chorar à frente dos outros. Quero a liberdade de quem a nada, ou pouco, obedece. A sensação de calma, de satisfação, de uma finitude que existe, mas não é assim tão mal amada.
Vs
Quero as palavras e os sentidos mais complexos, as especiarias mais raras e acordar cada dia de forma divergente. Quero o meu corpo a nu mais vezes, e toques de mãos vindas de pessoas diferentes. Quero ser servida à mesa e servir à mesa, dormir entre animais e em camas de hotel. Ser muito, mas discreta. Fazer e experimentar tudo. Conversar. Quero as sensações mais extremas, desde o medo ao mais elevado êxtase. Ter a elegância de me levantar após a queda. Sair porta fora, e ter a força de me conter na alegria e na tristeza. Quero as luzes da cidade, o odor a gente, as mãos no corrimão do eléctrico. Penso em palcos e em ser plateia, penso em aplausos sentidos. Quero sentir-me menos presa ao que tento apenas ser. A sensação de euforia, de satisfação, de uma finitude que existe, e que me faz arrepender do que ainda não fui, e sei, que nunca vou ter a coragem de ser.
Vs
Quero as palavras e os sentidos mais complexos, as especiarias mais raras e acordar cada dia de forma divergente. Quero o meu corpo a nu mais vezes, e toques de mãos vindas de pessoas diferentes. Quero ser servida à mesa e servir à mesa, dormir entre animais e em camas de hotel. Ser muito, mas discreta. Fazer e experimentar tudo. Conversar. Quero as sensações mais extremas, desde o medo ao mais elevado êxtase. Ter a elegância de me levantar após a queda. Sair porta fora, e ter a força de me conter na alegria e na tristeza. Quero as luzes da cidade, o odor a gente, as mãos no corrimão do eléctrico. Penso em palcos e em ser plateia, penso em aplausos sentidos. Quero sentir-me menos presa ao que tento apenas ser. A sensação de euforia, de satisfação, de uma finitude que existe, e que me faz arrepender do que ainda não fui, e sei, que nunca vou ter a coragem de ser.
Voltei
Voltei.
Ao mesmo de mim, que me preocupo em deixar para trás, e me assusta tanto que assim seja.
Voltei.
Ao mesmo de ti, quando tenho a tua ausência em todas as minhas perguntas camufladas de indiferença e orgulho. Queria muito acelerar o passo, ultrapassar-te e esquecer-me que um dia corremos a mesma corrida. Queria tanto que o espaço e o tempo não pregassem esta partida, de chegar tarde para te ter, de chegar depois de alguém, que tu gostas mais, independentemente de amares pior.
Suspeito já nem me amar a mim o suficiente, porque recuava aos momentos que foram aqueles e que trouxeram depois tanto amargo à minha boca. Voltava à pele dos dedos quando não se cansavam de tocar nestas teclas que temos pelo corpo, e ao conforto e segurança do peito, e da respiração. Voltava até ao mais baixo que desci, ao prazer que a companhia me deu, mesmo sendo eu só uma a mais. Voltava àquela noite, em que olhaste para mim, e eu achei que me tinhas visto. Aquela primeira, em que um cigarro, sozinhos na rua, me aqueceu a alma como nunca antes. E ouvi as palavras como as queria ouvir e nem sabia que existiam.
Há dias, em que voltava a esse cigarro, a essa rua e a nós, e fazia tudo exactamente da mesma maneira.
Há outros, em que voltava a essa noite e a ti, mas apagava o cigarro, devolvia-te o casaco e ia-me embora. É que agora. Voltei. Voltei ao mesmo de ti. E custa tanto manter-me de pé. Segurar as palavras, e brincar ao faz de conta.
Faz de conta que te ultrapassei na corrida.
15 de Agosto de 2008
Ao mesmo de mim, que me preocupo em deixar para trás, e me assusta tanto que assim seja.
Voltei.
Ao mesmo de ti, quando tenho a tua ausência em todas as minhas perguntas camufladas de indiferença e orgulho. Queria muito acelerar o passo, ultrapassar-te e esquecer-me que um dia corremos a mesma corrida. Queria tanto que o espaço e o tempo não pregassem esta partida, de chegar tarde para te ter, de chegar depois de alguém, que tu gostas mais, independentemente de amares pior.
Suspeito já nem me amar a mim o suficiente, porque recuava aos momentos que foram aqueles e que trouxeram depois tanto amargo à minha boca. Voltava à pele dos dedos quando não se cansavam de tocar nestas teclas que temos pelo corpo, e ao conforto e segurança do peito, e da respiração. Voltava até ao mais baixo que desci, ao prazer que a companhia me deu, mesmo sendo eu só uma a mais. Voltava àquela noite, em que olhaste para mim, e eu achei que me tinhas visto. Aquela primeira, em que um cigarro, sozinhos na rua, me aqueceu a alma como nunca antes. E ouvi as palavras como as queria ouvir e nem sabia que existiam.
Há dias, em que voltava a esse cigarro, a essa rua e a nós, e fazia tudo exactamente da mesma maneira.
Há outros, em que voltava a essa noite e a ti, mas apagava o cigarro, devolvia-te o casaco e ia-me embora. É que agora. Voltei. Voltei ao mesmo de ti. E custa tanto manter-me de pé. Segurar as palavras, e brincar ao faz de conta.
Faz de conta que te ultrapassei na corrida.
15 de Agosto de 2008
VI
Volto hoje novamente aqui a casa. Onde estás em toda a parte para mim.
Foste feliz? Eu sempre pensei que sim. Eras uma menina feliz e mais recentemente eras uma mulher feliz. Às vezes não tinhas noção do que o nosso crescer trazia. Às vezes só querias a parte boa de crescer. Mas foste sempre a mais calma, a mais razoável, mesmo na criança que também eras.
Vou sentir a tua falta quando me tornar uma mulher ainda mais zangada com a vida.
Vou precisar da tua calma aparente, do teu optimismo irreal para me colocar na linha.
Foste feliz? Eu sempre pensei que sim. Eras uma menina feliz e mais recentemente eras uma mulher feliz. Às vezes não tinhas noção do que o nosso crescer trazia. Às vezes só querias a parte boa de crescer. Mas foste sempre a mais calma, a mais razoável, mesmo na criança que também eras.
Vou sentir a tua falta quando me tornar uma mulher ainda mais zangada com a vida.
Vou precisar da tua calma aparente, do teu optimismo irreal para me colocar na linha.
V
Onde é que eu vou guardar estas coisas que tenho para dizer só a ti? Em que caixa é que se guarda algo que não pode existir mais?
IV
Já lá vão 3 dias. Adormeço com medo. Tento agarrar-me a ti, ao que te aconteceu, para me tornar melhor. Fazer jus ao que te foi tirado. Mas ainda não consigo. Só sei fumar cigarros e beber cafés. Não consigo estar com os meus pais e a tentativa deles por me animarem desta apatia. As coisas não têm cor e não tenho vontade. Só me quero rodear de ti, da tua imagem, da tua música e dos nossos amigos. Por falar em amigos, deixa-me contar-te sobre aquele dia. Se nos conseguisses ver ias chorar como nós te chorámos e também te ias rir com a ironia de alguns momentos. Obviamente que não tocámos o “Vamos à La playa” como tínhamos conversado. E sabes bem que não fazia o menor sentido. Eras um gato no que diz respeito à água da praia. Não pusemos música nenhuma. O buraco que temos no peito não nos deu forças para colocar o plano em acção. Mas temos posto a tocar as tuas músicas. Há poucas que não me lembrem de ti. Pomos as músicas e não nos ralamos se se torna masoquista ou não. Nada pode ser pior que a tua ausência. E trazemos-te mais perto assim.
Foi com tanto amor. A forma como as pessoas se abraçaram por ti foi com muito amor. Voltaram a unir-se laços outrora desfeitos e tudo pela saudade que já se sentia de ti. Foram momentos inconsoláveis e o teu corpo ali tão perto.
Foi com tanto amor. A forma como as pessoas se abraçaram por ti foi com muito amor. Voltaram a unir-se laços outrora desfeitos e tudo pela saudade que já se sentia de ti. Foram momentos inconsoláveis e o teu corpo ali tão perto.
III
Eras a pessoa mais parecida comigo nas nossas infindáveis diferenças. Tínhamos uma paixão inata por coisas estranhas e por coisas bonitas. Partilhávamos o facto de não nos contentarmos muito com qualquer coisa. E também partilhávamos um perdão fácil a quase tudo. Gostávamos de ter razão e lutámos muito por isso. Às vezes juntas, às vezes uma contra a outra. Mas nunca nos custou muito admitir quando estávamos erradas, pois não?
Era tão fácil gostar de ti. Não eras ausente de defeitos, como ninguém é. Mas admito que até os teus defeitos me fizeram sempre rir. A forma como te encostavas ao balcão enquanto púnhamos a mesa despertava em mim uma série de sensações e tu sabias que sim, às vezes. A tua forma desajeitada para te pintares ou para arranjares o cabelo, a falta de jeito para tudo o que eram trabalhos manuais convertia-se em jeito natural para outras coisas que tu tanto gostavas. A fotografia era um exemplo. E depois despertavas em mim um instinto maternal com esta falta de jeito. Gostavas tanto da minha massinha com frango. Nem questiono se te lembras porque acho que é impossível esqueceres. E as vezes que te tirei as lentes de contacto ou que fiz o risco preto nos teus olhos verdes.
Era tão fácil gostar de ti. Não eras ausente de defeitos, como ninguém é. Mas admito que até os teus defeitos me fizeram sempre rir. A forma como te encostavas ao balcão enquanto púnhamos a mesa despertava em mim uma série de sensações e tu sabias que sim, às vezes. A tua forma desajeitada para te pintares ou para arranjares o cabelo, a falta de jeito para tudo o que eram trabalhos manuais convertia-se em jeito natural para outras coisas que tu tanto gostavas. A fotografia era um exemplo. E depois despertavas em mim um instinto maternal com esta falta de jeito. Gostavas tanto da minha massinha com frango. Nem questiono se te lembras porque acho que é impossível esqueceres. E as vezes que te tirei as lentes de contacto ou que fiz o risco preto nos teus olhos verdes.
II
Nunca precisámos de muitas palavras. Parece que nunca precisamos de palavras para aqueles que mais amamos. E geralmente, as palavras que usamos mais são as sinceras, as que magoam mais e nos conseguem deixar de rastos. Foi assim tantas vezes, lembras-te? Houve um dia em que me disseste que só conseguia ser verdadeiramente sincera contigo. Não é inteiramente verdade. Também o sou com a minha mãe e com o meu pai. Se calhar nem o consigo ser com o meu irmão. E apesar de me teres dito isto de forma crítica, apesar de eu não te ter dado razão na altura, é verdade. Foste a pessoa com que eu mais discuti e com quem mais me zanguei sem nunca termos ficado realmente chateadas. Deixa-me feliz saber que nunca perdemos tempo com isto. Às vezes bastava uma música, bastava a necessidade, ou simplesmente por nada, mas começávamos a falar como se nada tivesse acontecido. E como gostávamos de falar sem ter nada para dizer. Sobre devaneios e sonhos estranhos, sobre situações potenciais ou coisas que nem sequer existiam para além da nossa imaginação. Será que às vezes fui dura demais? Sim. Será que às vezes me tiravas completamente do sério? Sim. E funcionávamos. Porque havia esta sensação que nos fazia sentir saudades. Esta confiança em que não era preciso beijos de cumprimento, não era preciso começar as conversas com “Olá” ou “Como estás?”. Não era preciso despedidas nem formalidades.
Será que alguma vez sentimos inveja daquelas amizades cheias de abraços e palavras grandes? É que nunca fomos assim. Nem nunca falaste ao telemóvel com alguém “relevante” ao pé de mim, nunca deixaste a porta da casa de banho aberta. Mas também nunca o fizeste com mais ninguém. Espero que tenhas noção de que os teus níveis de intimidade eram contraditórios. Tão depressa ficavas sem me dizer sobre “ele” se eu não te perguntasse, como facilmente me dizias que quando chegasses a casa ias “tratar” de ti. E isto caracterizava-nos. Saber que havia muito poucas coisas que nos chocassem. Muito pouco pudor que nos transportava a uma honestidade confortável. Era isto, éramos confortáveis na nossa amizade. Sem termos de nos esforçar para agradar, sem ter medo de nos perdermos, sem chão de vidro.
Sempre foste o oposto que me fazia manter o equilíbrio. Por mim chegava sempre antes da hora. Por ti, chegávamos atrasadas. Juntas, chegávamos à hora certa. E às vezes precisávamos de espaço. Todas aquelas horas deixavam-nos de rastos. Quer pelos sonhos irreais que tu tinhas e eu contrariava, quer pelo perfeccionismo que tu não gostavas em mim. Depois tínhamos aqueles momentos que me deixavam ansiosa para falar contigo. Sabia exactamente qual seria a tua opinião. Sabia que podia dizer o que tinha a dizer contigo. E chegava ao pé de ti, saía-me uma palavra e tu adivinhavas o que eu tinha para dizer. Às vezes concordavas apenas com uma gargalhada estúpida e isso bastava-me na nossa cumplicidade. Aliviava-me a partilha das ideias loucas que sempre me passaram pela cabeça e acho que a ti também. Nunca foi em vão que fiquei com tantas coisas por dizer porque o ritmo a que produzíamos ideias sobre as nossas músicas, os nossos filmes, as nossas fotografias e os nossos planos era elevado.
Será que alguma vez sentimos inveja daquelas amizades cheias de abraços e palavras grandes? É que nunca fomos assim. Nem nunca falaste ao telemóvel com alguém “relevante” ao pé de mim, nunca deixaste a porta da casa de banho aberta. Mas também nunca o fizeste com mais ninguém. Espero que tenhas noção de que os teus níveis de intimidade eram contraditórios. Tão depressa ficavas sem me dizer sobre “ele” se eu não te perguntasse, como facilmente me dizias que quando chegasses a casa ias “tratar” de ti. E isto caracterizava-nos. Saber que havia muito poucas coisas que nos chocassem. Muito pouco pudor que nos transportava a uma honestidade confortável. Era isto, éramos confortáveis na nossa amizade. Sem termos de nos esforçar para agradar, sem ter medo de nos perdermos, sem chão de vidro.
Sempre foste o oposto que me fazia manter o equilíbrio. Por mim chegava sempre antes da hora. Por ti, chegávamos atrasadas. Juntas, chegávamos à hora certa. E às vezes precisávamos de espaço. Todas aquelas horas deixavam-nos de rastos. Quer pelos sonhos irreais que tu tinhas e eu contrariava, quer pelo perfeccionismo que tu não gostavas em mim. Depois tínhamos aqueles momentos que me deixavam ansiosa para falar contigo. Sabia exactamente qual seria a tua opinião. Sabia que podia dizer o que tinha a dizer contigo. E chegava ao pé de ti, saía-me uma palavra e tu adivinhavas o que eu tinha para dizer. Às vezes concordavas apenas com uma gargalhada estúpida e isso bastava-me na nossa cumplicidade. Aliviava-me a partilha das ideias loucas que sempre me passaram pela cabeça e acho que a ti também. Nunca foi em vão que fiquei com tantas coisas por dizer porque o ritmo a que produzíamos ideias sobre as nossas músicas, os nossos filmes, as nossas fotografias e os nossos planos era elevado.
I
No dia em que morreste não consegui acreditar. Ainda não consigo. Sempre que estás em mim, nas minhas, nas nossas coisas, não consigo acreditar. Ainda estás quente. Estás comigo.
Não te consigo deixar ir. E também sei que não vais a lado nenhum. É por mim que faço isto, porque prometemos o resto da vida. Mas também é por ti, porque não tens onde ir a não ser ficar na minha memória. Não é surpresa ou segredo para ti. Sabes que não acredito em mais nada para além desta vida que tu tinhas. Não estás em lugar nenhum melhor, não olhas por ninguém, não existe mais nada. Só o que foste sozinha e connosco.
Não te consigo deixar ir. E também sei que não vais a lado nenhum. É por mim que faço isto, porque prometemos o resto da vida. Mas também é por ti, porque não tens onde ir a não ser ficar na minha memória. Não é surpresa ou segredo para ti. Sabes que não acredito em mais nada para além desta vida que tu tinhas. Não estás em lugar nenhum melhor, não olhas por ninguém, não existe mais nada. Só o que foste sozinha e connosco.
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