segunda-feira, 8 de agosto de 2011

VII

Hoje embalei-me num comboio e vieste comigo o caminho todo. Veio-me à boca o sabor amargo do café das quatro e cinco da manhã quando estudávamos até ser dia. Quando parecíamos não dormir e comer há uma semana e a minha mãe descia as escadas e fazia o pequeno-almoço. Lembro-me de como punhas o cabelo, de não precisares de usar base para estar comigo e das camisolas que já não usavas fora de casa. Lembro-me de acharmos que não aguentávamos mais e no fim, aguentávamos sempre mais um bocadinho. E às vezes adormecemos. Avisaste-me que o sofá não era o sítio ideal para pegar em livros. Lá te convenci e lá adormecemos sem adormecer realmente. Ficámos a falar uma para a outra de olhos fichados. E será que foi assim? Será que foi assim que chegámos tão longe? A pegar nos livros sempre mais tarde do que devíamos e sempre a chegar a um ponto de confusão mental entre a realidade do acordar e a memória de estar a dormir? Não sei.

O combinado era podermos recordar estas nossas insanidades pela vida fora. Ir lembrando estas peripécias uma com a outra, ou contando-as a quem nos fizesse sentido. O combinado era estares aqui. Tenho memórias a mais para um corpo só. Tenho memórias a mais se não as partilhar contigo. Sinto a minha respiração pesar.

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