domingo, 7 de agosto de 2011

II

Nunca precisámos de muitas palavras. Parece que nunca precisamos de palavras para aqueles que mais amamos. E geralmente, as palavras que usamos mais são as sinceras, as que magoam mais e nos conseguem deixar de rastos. Foi assim tantas vezes, lembras-te? Houve um dia em que me disseste que só conseguia ser verdadeiramente sincera contigo. Não é inteiramente verdade. Também o sou com a minha mãe e com o meu pai. Se calhar nem o consigo ser com o meu irmão. E apesar de me teres dito isto de forma crítica, apesar de eu não te ter dado razão na altura, é verdade. Foste a pessoa com que eu mais discuti e com quem mais me zanguei sem nunca termos ficado realmente chateadas. Deixa-me feliz saber que nunca perdemos tempo com isto. Às vezes bastava uma música, bastava a necessidade, ou simplesmente por nada, mas começávamos a falar como se nada tivesse acontecido. E como gostávamos de falar sem ter nada para dizer. Sobre devaneios e sonhos estranhos, sobre situações potenciais ou coisas que nem sequer existiam para além da nossa imaginação. Será que às vezes fui dura demais? Sim. Será que às vezes me tiravas completamente do sério? Sim. E funcionávamos. Porque havia esta sensação que nos fazia sentir saudades. Esta confiança em que não era preciso beijos de cumprimento, não era preciso começar as conversas com “Olá” ou “Como estás?”. Não era preciso despedidas nem formalidades.
Será que alguma vez sentimos inveja daquelas amizades cheias de abraços e palavras grandes? É que nunca fomos assim. Nem nunca falaste ao telemóvel com alguém “relevante” ao pé de mim, nunca deixaste a porta da casa de banho aberta. Mas também nunca o fizeste com mais ninguém. Espero que tenhas noção de que os teus níveis de intimidade eram contraditórios. Tão depressa ficavas sem me dizer sobre “ele” se eu não te perguntasse, como facilmente me dizias que quando chegasses a casa ias “tratar” de ti. E isto caracterizava-nos. Saber que havia muito poucas coisas que nos chocassem. Muito pouco pudor que nos transportava a uma honestidade confortável. Era isto, éramos confortáveis na nossa amizade. Sem termos de nos esforçar para agradar, sem ter medo de nos perdermos, sem chão de vidro.
Sempre foste o oposto que me fazia manter o equilíbrio. Por mim chegava sempre antes da hora. Por ti, chegávamos atrasadas. Juntas, chegávamos à hora certa. E às vezes precisávamos de espaço. Todas aquelas horas deixavam-nos de rastos. Quer pelos sonhos irreais que tu tinhas e eu contrariava, quer pelo perfeccionismo que tu não gostavas em mim. Depois tínhamos aqueles momentos que me deixavam ansiosa para falar contigo. Sabia exactamente qual seria a tua opinião. Sabia que podia dizer o que tinha a dizer contigo. E chegava ao pé de ti, saía-me uma palavra e tu adivinhavas o que eu tinha para dizer. Às vezes concordavas apenas com uma gargalhada estúpida e isso bastava-me na nossa cumplicidade. Aliviava-me a partilha das ideias loucas que sempre me passaram pela cabeça e acho que a ti também. Nunca foi em vão que fiquei com tantas coisas por dizer porque o ritmo a que produzíamos ideias sobre as nossas músicas, os nossos filmes, as nossas fotografias e os nossos planos era elevado.

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