Como é que levaste este segredo contigo? Como é que conseguiste? Sinto-me de gatas no chão, de olhos vendados, à procura da ponta de alguma superfície, da ponta da verdade.
Eu sei que não tenho de a encontrar, à verdade. Mas quero. Não sei se sabendo o que falta me ia sentir mais perto de ti. Eu sei que não esperavas morrer ali, naquele dia, daquela maneira. Eu sei que não escondias um segredo para sempre. Mas porque é que não insisti mais? Como é que me contentei com uma fotografia, um nome? E os teus telefonemas, para quem eram? Porque é que a curiosidade não me consumiu antes?
Penso em ti todos os dias. E às vezes tenho de lembrar a mim mesma que já não estás comigo. Agora procuro e-mails antigos, procuro pessoas que nem sei se existiram. Procuro por ti, à procura de uma prova, de um sinal qualquer que me diga a verdade.
Tenho a tua vida toda decorada. Menos uma verdade. Menos um homem, que eu nunca vou descobrir quem é. Só para lhe perguntar,
"Estás bem?".
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
Não sei amar-te.
Não sei trazer-me comigo cada vez que estou contigo. Dou-te o corpo. Dou-te o tempo. Mas não me dou.
É este o meu segredo, é isto que escondo quando me fixas nos olhos e perguntas o que é que eu estou a pensar. É isto que tenho em mim quando me vou embora a meio da noite. Quando invento desculpas para não voltar.
É este o meu segredo, é isto que não te consegui dizer antes de tu me perguntares. Não consigo gostar mais de nós do que de mim. Não consigo despir a alma como consigo despir o corpo. Não consigo trazer-te à minha casa, dar-te os meus amigos. Cozinhar para ti. Não consigo baixar a guarda, ser tua amiga. Não consigo desiludir-te, ser o contrário daquilo que tu achas que eu sou. Não consigo ser-te imperfeita. Não consigo respirar.
Deixo-te agora. Não posso ser o teu único mundo quando tu ainda não entraste no meu. Não posso ficar, não posso prometer mais. Quero dar-te o tempo de encontrar algo mais que eu. Que te faça feliz, sempre.
Já sinto a tua falta. Do que eu sou no teu abraço, para onde me levas longe deste gelo que eu sou. E vou sentir a tua falta. Mas tu não podes saber. Vou-me lembrar de quão próxima estive. Do quanto quis gostar de ti. Vou-me lembrar da forma como te arranquei o coração do peito e o desfiz à tua frente. Vou sentir pena de não ter um para te dar. É que este que eu tenho não presta. Este que eu tenho não funciona como é normal.
Vou-me embora. sem poder olhar para trás. Não posso colar-te o coração. Desejo, como nunca desejei nada, que alguém te o arranje, alguém que te saibe amar bem, amar melhor, e sempre.
"Então e tu, vais ficar sozinha para sempre?". Sim, se tiver que ser. "Ninguém consegue viver assim, olha para mim". Eu sei. Mas não volto a tentar.
Não sei trazer-me comigo cada vez que estou contigo. Dou-te o corpo. Dou-te o tempo. Mas não me dou.
É este o meu segredo, é isto que escondo quando me fixas nos olhos e perguntas o que é que eu estou a pensar. É isto que tenho em mim quando me vou embora a meio da noite. Quando invento desculpas para não voltar.
É este o meu segredo, é isto que não te consegui dizer antes de tu me perguntares. Não consigo gostar mais de nós do que de mim. Não consigo despir a alma como consigo despir o corpo. Não consigo trazer-te à minha casa, dar-te os meus amigos. Cozinhar para ti. Não consigo baixar a guarda, ser tua amiga. Não consigo desiludir-te, ser o contrário daquilo que tu achas que eu sou. Não consigo ser-te imperfeita. Não consigo respirar.
Deixo-te agora. Não posso ser o teu único mundo quando tu ainda não entraste no meu. Não posso ficar, não posso prometer mais. Quero dar-te o tempo de encontrar algo mais que eu. Que te faça feliz, sempre.
Já sinto a tua falta. Do que eu sou no teu abraço, para onde me levas longe deste gelo que eu sou. E vou sentir a tua falta. Mas tu não podes saber. Vou-me lembrar de quão próxima estive. Do quanto quis gostar de ti. Vou-me lembrar da forma como te arranquei o coração do peito e o desfiz à tua frente. Vou sentir pena de não ter um para te dar. É que este que eu tenho não presta. Este que eu tenho não funciona como é normal.
Vou-me embora. sem poder olhar para trás. Não posso colar-te o coração. Desejo, como nunca desejei nada, que alguém te o arranje, alguém que te saibe amar bem, amar melhor, e sempre.
"Então e tu, vais ficar sozinha para sempre?". Sim, se tiver que ser. "Ninguém consegue viver assim, olha para mim". Eu sei. Mas não volto a tentar.
domingo, 30 de setembro de 2012
Ainda agora,
Ainda agora aqui cheguei. Já me estou a ir embora. Com este peso nos olhos, molhados. Com este peso no peito. Sinto o meu corpo a dobrar, a tender para o chão.
Ainda agora aqui cheguei. Vocês falam-me do que já aconteceu. Eu tento dizer alguma coisa, mas já foi tudo dito. Já passou.
Ainda agora aqui cheguei, não tenho tempo de vos sentir inteiros. Vejo metade de vocês.
E agora vou-me embora. Com saudade de não sentir medo. Que vocês se esqueçam de mim.
Ainda agora aqui cheguei. Vocês falam-me do que já aconteceu. Eu tento dizer alguma coisa, mas já foi tudo dito. Já passou.
Ainda agora aqui cheguei, não tenho tempo de vos sentir inteiros. Vejo metade de vocês.
E agora vou-me embora. Com saudade de não sentir medo. Que vocês se esqueçam de mim.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Charlie,
onde estás? Para onde vão as almas dos corpos que não morrem, mas enlouquecem?
Conheci um Senhor, como os outros. Embaraçado, a lamentar. A enfermeira tem de ajudar a urinar. A enfermeira tem de ajudar a levantar, a baixar as calças. E o Senhor pede desculpa, agradece, a noite toda. Foram 3, as noites. 3 noites a desculpar, 3 noites a baixar as calças, a aconchegar os lençóis,
Conheci um Senhor, como os outros. Embaraçado, a lamentar. A enfermeira tem de ajudar a urinar. A enfermeira tem de ajudar a levantar, a baixar as calças. E o Senhor pede desculpa, agradece, a noite toda. Foram 3, as noites. 3 noites a desculpar, 3 noites a baixar as calças, a aconchegar os lençóis,
"Tente descansar Charlie, Boa noite".
"Boa noite Laura".
Charlie, onde é que te perdeste? Que estranho mundo é esse em que ficaste na tua cabeça? Que conexões é que se fizeram, o que é que se desfez? O que é que aconteceu na natureza, que matéria é que se alterou? Que física, que química? Te levaram daqui.
É de madrugada, esqueceste-te do meu nome. No dia a seguir,deste-me outro. Passei a ser russa, depois alemã. Escondida. Olhaste para os outros homens deitados ao teu lado. Fizeste ameaças, falaste baixinho. Já não pedes desculpa. Estás a ser verbalmente agressivo. Obsessivo. Estás a andar de um lado para o outro. Agarro-te, como é que posso ter medo de ti? És rápido, bebes o álcool desinfectante, chega a segurança. Vais ser posto da cama. Agarrado, à força.
É de madrugada, esqueceste-te do meu nome. No dia a seguir,deste-me outro. Passei a ser russa, depois alemã. Escondida. Olhaste para os outros homens deitados ao teu lado. Fizeste ameaças, falaste baixinho. Já não pedes desculpa. Estás a ser verbalmente agressivo. Obsessivo. Estás a andar de um lado para o outro. Agarro-te, como é que posso ter medo de ti? És rápido, bebes o álcool desinfectante, chega a segurança. Vais ser posto da cama. Agarrado, à força.
"Olha para mim Charlie, como é que eu me chamo?".
Já não sabes quem eu sou. E olho-te nos olhos: És outro homem dentro do mesmo corpo. Penso para mim se vais voltar. Não sei se vais voltar.
No fim da tarde a tua família pergunta por ti. Aponto-lhes um homem. Um que eu conheci há 3 dias atrás, que eles conheceram a vida toda. Mas não és tu que aí estás.
"Oh Charlie, volta."
Penso em ti. Pior que a doença dos braços, das pernas, do tronco, é ser dois homens diferentes em 4 dias.
domingo, 15 de julho de 2012
Balança
, que pesa o mesmo para os dois lados. Sem tendência, sem se mexer.
Preciso de ti, território neutro, sentir pele de galinha sem medo. Já não sei estar ali ou cá. Sinto a nossa falta, que não tinha esta ansiedade,este custar a inspirar. Sinto a nossa falta,quando havia tempo,quando não pensávamos no tempo. Sinto a minha falta, quando não havia prazo de validade, quando as pessoas não morriam. Sinto a tua falta, a tua pele vermelha do sol, os teus olhos mais verdes do sol e da água salgada. Dos teus atrasos. Eras sempre a última. Porque é que não foste a última desta vez?
Diz-me para ter calma, como antigamente. Diz-me que vai ficar tudo bem.
Obriga-me a ter calma.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
A vela apagou-se. Fiquei às escuras.
Ninguém a apagou com um sopro, ninguém a colocou ao vento, ninguém lhe tocou.
A cera é que acabou. Ficou só a que secou enquanto escorria pelo castiçal. Do pavio sobrou um resto. Aquele que não pode queimar mais.
Fico surpresa, como se não estivesse à espera que fosse assim. Estava?
Sim, mas não estava preparada.
Continuo a pegar no isqueiro, ofereço lume ao pavio. Ele acende-se, mas a chama já não dura mais que 2 segundos.
Sinto falta, daquela luz que me aquecia.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
XVII
Passou um ano neste quarto escuro. Mais escuro depois de ti. Sei ao segundo o momento em que me vieram dizer. Tenho decorados os passos que dei até me mandarem sentar, aquele arrepiar da pele, aquele frio, que ainda sinto. Ainda penso todos os dias. Às vezes só com saudade de te ter, na maioria, com a raiva de já não estares cá. Ainda não te aceito aí, quando a minha vida continua, e faço isto e aquilo, vou aqui e ali. E tu não. Tu já nunca estás comigo, só na memória, só nos meus desejos. Vejo os teus vídeos, vejo fotografias. E já são sempre as mesmas. Desde há um ano, vais ser sempre a mesma. Sempre com 22 anos, sempre sem a dieta que ias tentando, sem trabalhares na Austrália, sem conheceres o mundo, sem teres uma biblioteca e uma sala de cinema em casa, sem teres aulas de tango,sem teres um filho. Vais ser sempre a mesma. E eu que tenho tanto para me lembrar de ti, acho que não chega. Vou chorar sempre mais por ti do que por mim. Porque não tiveste mais tempo.
Se eu pudesse, dava-te metade do meu. Sem olhar para trás.
Porque sinto falta de ti. O meu coração continua no mesmo sítio, mesmo que o corpo esteja num sítio onde tu nunca estiveste.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
XVI
Pergunto-me como é que seria.
Há dois anos fomos protagonistas daquela cena de filme da nossa queima das fitas. Não consigo pensar que foi uma discussão em vão, sem sentido. Se existiu coisa que não faltou, foi sentido. E mais tarde não tentámos ser donas da razão, talvez fosse esse o motivo de nos magoar tanto o que aconteceu. Tínhamos lados contrários da culpa, mas com a mesma força, a mesma fúria. Foi uma noite que tentámos partilhar com quem nos faz a alma grande, mas no fundo, foi uma noite particularmente nossa. O meu caminho era igual ao teu. Tínhamos exactamente os mesmos calos, as mesmas horas sem dormir, os sacrifícios , o álcool no corpo, as mesmas frustrações, o mesmo êxtase. E quando me fui embora com elas e te deixei ali, nem toda a raiva do mundo me faria não voltar. Tive em mim aquele amor de sempre, de família, pela minha irmã que não era perfeita e que gostava de mim sem eu ser perfeita. Encontrei-te com os olhos todos esborratados de chorar. Ainda tentámos pôr os pontos nos is, mas sem sucesso, tentaste embebedar-me e demos um abraço. Depois deixei-te em casa, fiquei a ver-te lutar com a fechadura da porta até entrares e pensei «ainda bem que voltei».
sábado, 7 de abril de 2012
Post mortem
Foram só duas horas.E quando lhe agarrei no corpo ainda me sentiu a tocá-lo. Agarrei-lhe na cabeça, com o outro braço nas costas. Coloquei-o de lado, com a força que veio não sei de onde. Fiquei ali, à minha volta alguns tentavam aspirá-lo. Outros olhavam, à espera. Alguém perguntou se era para reanimar. Outros responderam que não com a cabeça. As mãos frias, a pele húmida, o corpo a ceder tão lentamente que parecia a vida toda. Deixei de o ver inspirar. Deixei de lhe sentir o pulso. E enquanto o corpo parava, deixei-o descansar de volta à posição original. Agarrei-lhe na mão, apertei com toda a força que me sobrava. E ele morria. Fechámos-lhe os olhos.
Toda a gente saiu do quarto. Desliguei as máquinas, ficámos em silêncio. Compus-lhe o cabelo. Olhei para o relógio que ele tinha no pulso. Que não parava. Pelo menos para mim, aquele relógio não parava. E ainda assim estava ali, na pele de um corpo parado. Já sem utilidade, o relógio, o corpo.
Lavei-o. Mudei-lhe os lençóis. Disse-lhe adeus,
sem nunca o ter conhecido.
Toda a gente saiu do quarto. Desliguei as máquinas, ficámos em silêncio. Compus-lhe o cabelo. Olhei para o relógio que ele tinha no pulso. Que não parava. Pelo menos para mim, aquele relógio não parava. E ainda assim estava ali, na pele de um corpo parado. Já sem utilidade, o relógio, o corpo.
Lavei-o. Mudei-lhe os lençóis. Disse-lhe adeus,
sem nunca o ter conhecido.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Cá dentro,
não te vou dizer que não. Não te vou condenar pelo que comes a mais, ou se mentiste, omitiste. Não vou ficar a pensar se traíste alguém, alguma coisa ou tu próprio. Cá dentro eu não te vou proibir de fazer o que vais acabar por fazer na mesma. Não vou falar contigo como se a verdade fosse só minha, como se a razão me pertencesse. Aqui, sem ninguém saber, não vou julgar os teus segredos, não vou fazer birra porque os tens, sem eu saber quais são. Não te vou encher de perguntas, a menos que queiras que eu as faça. De vez a vez vou afagar-te o cabelo, mesmo quando magoaste alguém, mesmo que não estejas arrependido, mas a consciência te arranhe o corpo. Cá dentro, vou deixar-te falar da boca para fora, exagerar, explodir. Vou perdoar o teu mau feitio, os acessos de raiva e também a felicidade que for superior à minha. Vou ficar calada quando te ouvir falar mal de alguém, mesmo que tenhas razão, mesmo que não tenhas razão. Aqui dentro podes ser estranho, gostar de coisas esquisitas, repugnantes. Podes falar pouco, ser invejoso, não gostar de mim. Cá dentro de mim, sou anormalmente humana, mas ninguém sabe. E tu, também. E não tenho a pretensão de ser mais, basta-me que sejas o que realmente és.
Queria que fossemos todos mais humanos, mais básicos, mais condescendentes, mais verdadeiros. Connosco, para começar.
Queria que fossemos todos mais humanos, mais básicos, mais condescendentes, mais verdadeiros. Connosco, para começar.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Quando o corpo deixa de saber estar num lugar. Quando já não se endireita, quando está menos alerta onde em tempos fervia. Quando quer ficar, mas tem medo de já não saber ficar.
Quando o corpo sonha que cai de carro pela serra. E rodopia em câmara lenta, para sentir tudo. A sensação de fim, de uma estranha resignação. E sem pânico. Porquê?
Deixa-me ir.
Quando o corpo sonha que cai de carro pela serra. E rodopia em câmara lenta, para sentir tudo. A sensação de fim, de uma estranha resignação. E sem pânico. Porquê?
Deixa-me ir.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
"I lost my voice",
Era o que ela tinha escrito numa folha A4 branca, colada ao peito. Assim, perdoei a ausência do Olá. A ausência da formalidade dirigida ao cliente, a ritmada simpatia, a voz monótona que pergunta se preciso de um saco, que posso digitar o código, que me agradece no fim da compra. Foi tudo exactamente igual, mas sem palavras.
E fiquei com a folha A4 na cabeça. E comecei a desejar usar folhas A4 para o "Perdi a voz", ainda que consiga falar, "Perdi a paciência", mesmo que tenha de a ter, "Perdi a compostura", "Perdi a energia", "e a cabeça, e a vontade, e a mim", que me perdi. Só que depois não sobrava corpo sem papel, só os olhos a espreitar, sem quererem deixar de ver. E à minha volta perdoavam as ausências do que eu tinha perdido, sem sobrar nada. Não me exigiam, não me viviam. E eu perdoava o que à minha volta tinham perdido, e sem darmos conta ficávamos sozinhos, no respeito de ambas as perdas.
"I lost my voice", era o que ela tinha escrito numa folha A4 branca, colada ao peito. Mas não se foi embora. Ela sorriu em vez de falar. E o resto, o resto nós sabíamos responder.
E fiquei com a folha A4 na cabeça. E comecei a desejar usar folhas A4 para o "Perdi a voz", ainda que consiga falar, "Perdi a paciência", mesmo que tenha de a ter, "Perdi a compostura", "Perdi a energia", "e a cabeça, e a vontade, e a mim", que me perdi. Só que depois não sobrava corpo sem papel, só os olhos a espreitar, sem quererem deixar de ver. E à minha volta perdoavam as ausências do que eu tinha perdido, sem sobrar nada. Não me exigiam, não me viviam. E eu perdoava o que à minha volta tinham perdido, e sem darmos conta ficávamos sozinhos, no respeito de ambas as perdas.
"I lost my voice", era o que ela tinha escrito numa folha A4 branca, colada ao peito. Mas não se foi embora. Ela sorriu em vez de falar. E o resto, o resto nós sabíamos responder.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
XV
Em quatro horas de sono, sonhei-te. Não me disseste nada de especial. Nunca me dizes quando sonho. Sabemos sempre o que aconteceu, mas nunca te pergunto. Abraço-te. Lembro-me de te abraçar muito, como a uma criança, agarrar-te na cara, nos caracóis e ter a ternura de quem sabe que já não existimos assim. Acho que estávamos em frente à sala dos moranguinhos, no Sebastião da Gama. Onde fomos crianças infinitamente. E ainda bem.
Passaram 7 meses. E foi ontem.
Passaram 7 meses. E foi ontem.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
XIV
Tínhamos dias em que chegávamos a casa e já nem nos conseguíamos ouvir uma à outra. Ficávamos cheias da falta de espaço, das horas que passávamos juntas. Ralhava-te com a razão de quem te queria descer à terra. Ralhavas-me com a razão de quem se permite sonhar. E chocávamos. Tive dias em que por minha vontade deixava-te onde quer que fosse. E sei que ficavas. Cheias de fogo, donas da razão.
Tínhamos dias em que as coisas só faziam sentido uma com a outra. Em que os outros eram demais para nós. Onde tínhamos medo, onde olhávamos de forma cúmplice uma para a outra quando ouvíamos as maiores barbaridades possíveis de alguém que não nos dizia muito.
Eu tinha dias em que questionava se as pessoas sabiam o quanto inteligente tu eras, já que tu não fazias questão de o demonstrar. Tinha dias em que sentia inveja da tua capacidade de ser o que te apetecia ser, por mais idiota que fosses parecer. Tinhas dias menos bons e ainda assim, nenhum deles com maldade, ou com orgulho. E eras tão fácil. De rir. De sorrir. De ti, e o quanto me ri contigo.
Não me sabias consolar. Nunca tiveste jeito para consolar ninguém. Nem a ti. Mas era esta insensibilidade que me fazia saber que eras real. Que nunca houve falsas palmadas nas costas. Nunca houve falsos abraços, falsas lágrimas.
E isto bastava-me na família que me eras. A família que não é perfeita. Que discute, que não concorda sempre. Que diz as coisas que aleijam o coração, sem o vir consolar, mas de propósito, para o levar à razão. Foste família que eu escolhi. A maior testemunha da minha vida. E eu sei de ti, quase tanto como tu sabias. E vou guardar-te.
Tínhamos dias em que as coisas só faziam sentido uma com a outra. Em que os outros eram demais para nós. Onde tínhamos medo, onde olhávamos de forma cúmplice uma para a outra quando ouvíamos as maiores barbaridades possíveis de alguém que não nos dizia muito.
Eu tinha dias em que questionava se as pessoas sabiam o quanto inteligente tu eras, já que tu não fazias questão de o demonstrar. Tinha dias em que sentia inveja da tua capacidade de ser o que te apetecia ser, por mais idiota que fosses parecer. Tinhas dias menos bons e ainda assim, nenhum deles com maldade, ou com orgulho. E eras tão fácil. De rir. De sorrir. De ti, e o quanto me ri contigo.
Não me sabias consolar. Nunca tiveste jeito para consolar ninguém. Nem a ti. Mas era esta insensibilidade que me fazia saber que eras real. Que nunca houve falsas palmadas nas costas. Nunca houve falsos abraços, falsas lágrimas.
E isto bastava-me na família que me eras. A família que não é perfeita. Que discute, que não concorda sempre. Que diz as coisas que aleijam o coração, sem o vir consolar, mas de propósito, para o levar à razão. Foste família que eu escolhi. A maior testemunha da minha vida. E eu sei de ti, quase tanto como tu sabias. E vou guardar-te.
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