terça-feira, 30 de agosto de 2011

IX

Lembras-te como é que explicávamos o conteúdo de uma coisa a alguém que não o entendia?

Olhávamos uma para a outra, impotentes, e pensávamos sem precisar falar: "Como é que é possível?".

E nem nunca nos sentimos mais por isso. Na maioria das vezes ficámos tristes.

Mas ao menos, tínhamos o conforto uma da outra. Eu sabia que tu encontravas conteúdo até nas coisas mais insignificantes que eu te pudesse mostrar. Até na cena daquele filme que quase ninguém gostava. Naquela música estranha que ninguém ouvia. Na fotografia que tu tiravas. Naquele momento que era só mais um.

E quando me aconselhavas alguma coisa, era a primeira que eu ia ver. Quando dizias não valer a pena, a minha vontade esmorecia.

Quando digo que tenho saudades tuas, não são só saudades de quando existias. São saudades da tua forma de pensar, daquilo que tu fazias e de como fazias. Saudades do que eu podia ser contigo. E tu, que podias ser o que quisesses comigo.

domingo, 21 de agosto de 2011

Mas penso,

Não fiquei à espera de nada. Não quis mais nada.

Mas penso.

Que amor é este que nos assola agora? Parece um amor com prazo de validade. O meu acabou. Nunca o mandei embora. O teu foi por ti recusado, passou do prazo.

E já não lutamos mais. Já não nos chegamos ao ouvido para dizer: "Não, não vais a lado nenhum. Eu estou aqui sempre. Eu fico aqui para sempre."

Já só nos deixamos ficar por nós. Cada um em si, e lamentamos. Podemos até chorar, dar uns murros na parede, magoar o corpo que nem tem culpa nenhuma.

Mas depois, ele vai-se embora.

Mandaste-o embora.

E a rapidez. A perfeita rapidez com que ele volta, cheio de tudo mais uma vez. De palavras, de metáforas. O amor de outra pessoa.

E penso: "Ainda bem que o meu acabou. O teu não era assim tão grande. Assim tão exclusivo."

E não quero mesmo nada. Mas tenho pena do amor.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Onde?

De onde é que vem esta capacidade para aguentarmos tudo? Para quem aguenta.

De onde é que vem este medo incontrariável de fugir à regra? Para quem não foge.

De onde é que vem esta força? E esta calma. E esta resignação.

De onde é que vens que não chegas nunca?

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sabes

Sabes qual é o meu problema?

Qual é o teu problema?

Bem, mais um dos meus problemas.

Mais um dos teus problemas...

Não sei começar nada sem pensar e tentar prever como vai acabar.

Isso é bom. És prevenida.

Sou. Mas pior que isso.

O quê?

É que isto significa que para mim tudo acaba.

Tu sempre soubeste.

Sim, mas...

..Mas agora deixaste de começar.

Mas agora deixei de começar.








quinta-feira, 11 de agosto de 2011

VIII

Não te esqueço. Faço-o por momentos ao longo dos dias, mas não esqueço. Já nem sei arranjar maneira de te afastar umas horas. Estás nas coisas que vou fazendo, nas que eu gostava de te contar. Estás nos planos que eu tenho e naquilo que sinto todos os dias com pessoas a morrerem mais um bocadinho à minha frente. Estás nas lágrimas que eu já não tenho e precisava libertar, na esperança que com elas saísse também este coração acelerado por não dar mais. Estás em mim quando eu penso que estou mal e sou injusta contigo porque tu nem sequer estás.

Estás comigo e eu não te deixo ir embora. Vou aprender a estar contigo, sem estares. Um dia.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

VII

Hoje embalei-me num comboio e vieste comigo o caminho todo. Veio-me à boca o sabor amargo do café das quatro e cinco da manhã quando estudávamos até ser dia. Quando parecíamos não dormir e comer há uma semana e a minha mãe descia as escadas e fazia o pequeno-almoço. Lembro-me de como punhas o cabelo, de não precisares de usar base para estar comigo e das camisolas que já não usavas fora de casa. Lembro-me de acharmos que não aguentávamos mais e no fim, aguentávamos sempre mais um bocadinho. E às vezes adormecemos. Avisaste-me que o sofá não era o sítio ideal para pegar em livros. Lá te convenci e lá adormecemos sem adormecer realmente. Ficámos a falar uma para a outra de olhos fichados. E será que foi assim? Será que foi assim que chegámos tão longe? A pegar nos livros sempre mais tarde do que devíamos e sempre a chegar a um ponto de confusão mental entre a realidade do acordar e a memória de estar a dormir? Não sei.

O combinado era podermos recordar estas nossas insanidades pela vida fora. Ir lembrando estas peripécias uma com a outra, ou contando-as a quem nos fizesse sentido. O combinado era estares aqui. Tenho memórias a mais para um corpo só. Tenho memórias a mais se não as partilhar contigo. Sinto a minha respiração pesar.

domingo, 7 de agosto de 2011

Versus

Quero o mais simples. Um copo de leite branco frio, e acordar a ser a mesma. Quero dias semelhantes e o conforto do mesmo abraço, do mesmo sexo. Quero a mesa posta sem formalidades num campo qualquer, a ouvir latir os cães, conversas com compaixão, com odor a família. Ser pouco, mas ser grande, ter pouco, sem precisar de mais. Quero ter tudo, desejando sempre pouco, contentando-me com os pés na areia fria daquelas praias. Ter a coragem de rir alto, chorar à frente dos outros. Quero a liberdade de quem a nada, ou pouco, obedece. A sensação de calma, de satisfação, de uma finitude que existe, mas não é assim tão mal amada.

Vs

Quero as palavras e os sentidos mais complexos, as especiarias mais raras e acordar cada dia de forma divergente. Quero o meu corpo a nu mais vezes, e toques de mãos vindas de pessoas diferentes. Quero ser servida à mesa e servir à mesa, dormir entre animais e em camas de hotel. Ser muito, mas discreta. Fazer e experimentar tudo. Conversar. Quero as sensações mais extremas, desde o medo ao mais elevado êxtase. Ter a elegância de me levantar após a queda. Sair porta fora, e ter a força de me conter na alegria e na tristeza. Quero as luzes da cidade, o odor a gente, as mãos no corrimão do eléctrico. Penso em palcos e em ser plateia, penso em aplausos sentidos. Quero sentir-me menos presa ao que tento apenas ser. A sensação de euforia, de satisfação, de uma finitude que existe, e que me faz arrepender do que ainda não fui, e sei, que nunca vou ter a coragem de ser.

Voltei

Voltei.
Ao mesmo de mim, que me preocupo em deixar para trás, e me assusta tanto que assim seja.
Voltei.
Ao mesmo de ti, quando tenho a tua ausência em todas as minhas perguntas camufladas de indiferença e orgulho. Queria muito acelerar o passo, ultrapassar-te e esquecer-me que um dia corremos a mesma corrida. Queria tanto que o espaço e o tempo não pregassem esta partida, de chegar tarde para te ter, de chegar depois de alguém, que tu gostas mais, independentemente de amares pior.
Suspeito já nem me amar a mim o suficiente, porque recuava aos momentos que foram aqueles e que trouxeram depois tanto amargo à minha boca. Voltava à pele dos dedos quando não se cansavam de tocar nestas teclas que temos pelo corpo, e ao conforto e segurança do peito, e da respiração. Voltava até ao mais baixo que desci, ao prazer que a companhia me deu, mesmo sendo eu só uma a mais. Voltava àquela noite, em que olhaste para mim, e eu achei que me tinhas visto. Aquela primeira, em que um cigarro, sozinhos na rua, me aqueceu a alma como nunca antes. E ouvi as palavras como as queria ouvir e nem sabia que existiam.

Há dias, em que voltava a esse cigarro, a essa rua e a nós, e fazia tudo exactamente da mesma maneira.
Há outros, em que voltava a essa noite e a ti, mas apagava o cigarro, devolvia-te o casaco e ia-me embora. É que agora. Voltei. Voltei ao mesmo de ti. E custa tanto manter-me de pé. Segurar as palavras, e brincar ao faz de conta.

Faz de conta que te ultrapassei na corrida.

15 de Agosto de 2008

VI

Volto hoje novamente aqui a casa. Onde estás em toda a parte para mim.
Foste feliz? Eu sempre pensei que sim. Eras uma menina feliz e mais recentemente eras uma mulher feliz. Às vezes não tinhas noção do que o nosso crescer trazia. Às vezes só querias a parte boa de crescer. Mas foste sempre a mais calma, a mais razoável, mesmo na criança que também eras.
Vou sentir a tua falta quando me tornar uma mulher ainda mais zangada com a vida.
Vou precisar da tua calma aparente, do teu optimismo irreal para me colocar na linha.

V

Onde é que eu vou guardar estas coisas que tenho para dizer só a ti? Em que caixa é que se guarda algo que não pode existir mais?

IV

Já lá vão 3 dias. Adormeço com medo. Tento agarrar-me a ti, ao que te aconteceu, para me tornar melhor. Fazer jus ao que te foi tirado. Mas ainda não consigo. Só sei fumar cigarros e beber cafés. Não consigo estar com os meus pais e a tentativa deles por me animarem desta apatia. As coisas não têm cor e não tenho vontade. Só me quero rodear de ti, da tua imagem, da tua música e dos nossos amigos. Por falar em amigos, deixa-me contar-te sobre aquele dia. Se nos conseguisses ver ias chorar como nós te chorámos e também te ias rir com a ironia de alguns momentos. Obviamente que não tocámos o “Vamos à La playa” como tínhamos conversado. E sabes bem que não fazia o menor sentido. Eras um gato no que diz respeito à água da praia. Não pusemos música nenhuma. O buraco que temos no peito não nos deu forças para colocar o plano em acção. Mas temos posto a tocar as tuas músicas. Há poucas que não me lembrem de ti. Pomos as músicas e não nos ralamos se se torna masoquista ou não. Nada pode ser pior que a tua ausência. E trazemos-te mais perto assim.
Foi com tanto amor. A forma como as pessoas se abraçaram por ti foi com muito amor. Voltaram a unir-se laços outrora desfeitos e tudo pela saudade que já se sentia de ti. Foram momentos inconsoláveis e o teu corpo ali tão perto.

III

Eras a pessoa mais parecida comigo nas nossas infindáveis diferenças. Tínhamos uma paixão inata por coisas estranhas e por coisas bonitas. Partilhávamos o facto de não nos contentarmos muito com qualquer coisa. E também partilhávamos um perdão fácil a quase tudo. Gostávamos de ter razão e lutámos muito por isso. Às vezes juntas, às vezes uma contra a outra. Mas nunca nos custou muito admitir quando estávamos erradas, pois não?
Era tão fácil gostar de ti. Não eras ausente de defeitos, como ninguém é. Mas admito que até os teus defeitos me fizeram sempre rir. A forma como te encostavas ao balcão enquanto púnhamos a mesa despertava em mim uma série de sensações e tu sabias que sim, às vezes. A tua forma desajeitada para te pintares ou para arranjares o cabelo, a falta de jeito para tudo o que eram trabalhos manuais convertia-se em jeito natural para outras coisas que tu tanto gostavas. A fotografia era um exemplo. E depois despertavas em mim um instinto maternal com esta falta de jeito. Gostavas tanto da minha massinha com frango. Nem questiono se te lembras porque acho que é impossível esqueceres. E as vezes que te tirei as lentes de contacto ou que fiz o risco preto nos teus olhos verdes.

II

Nunca precisámos de muitas palavras. Parece que nunca precisamos de palavras para aqueles que mais amamos. E geralmente, as palavras que usamos mais são as sinceras, as que magoam mais e nos conseguem deixar de rastos. Foi assim tantas vezes, lembras-te? Houve um dia em que me disseste que só conseguia ser verdadeiramente sincera contigo. Não é inteiramente verdade. Também o sou com a minha mãe e com o meu pai. Se calhar nem o consigo ser com o meu irmão. E apesar de me teres dito isto de forma crítica, apesar de eu não te ter dado razão na altura, é verdade. Foste a pessoa com que eu mais discuti e com quem mais me zanguei sem nunca termos ficado realmente chateadas. Deixa-me feliz saber que nunca perdemos tempo com isto. Às vezes bastava uma música, bastava a necessidade, ou simplesmente por nada, mas começávamos a falar como se nada tivesse acontecido. E como gostávamos de falar sem ter nada para dizer. Sobre devaneios e sonhos estranhos, sobre situações potenciais ou coisas que nem sequer existiam para além da nossa imaginação. Será que às vezes fui dura demais? Sim. Será que às vezes me tiravas completamente do sério? Sim. E funcionávamos. Porque havia esta sensação que nos fazia sentir saudades. Esta confiança em que não era preciso beijos de cumprimento, não era preciso começar as conversas com “Olá” ou “Como estás?”. Não era preciso despedidas nem formalidades.
Será que alguma vez sentimos inveja daquelas amizades cheias de abraços e palavras grandes? É que nunca fomos assim. Nem nunca falaste ao telemóvel com alguém “relevante” ao pé de mim, nunca deixaste a porta da casa de banho aberta. Mas também nunca o fizeste com mais ninguém. Espero que tenhas noção de que os teus níveis de intimidade eram contraditórios. Tão depressa ficavas sem me dizer sobre “ele” se eu não te perguntasse, como facilmente me dizias que quando chegasses a casa ias “tratar” de ti. E isto caracterizava-nos. Saber que havia muito poucas coisas que nos chocassem. Muito pouco pudor que nos transportava a uma honestidade confortável. Era isto, éramos confortáveis na nossa amizade. Sem termos de nos esforçar para agradar, sem ter medo de nos perdermos, sem chão de vidro.
Sempre foste o oposto que me fazia manter o equilíbrio. Por mim chegava sempre antes da hora. Por ti, chegávamos atrasadas. Juntas, chegávamos à hora certa. E às vezes precisávamos de espaço. Todas aquelas horas deixavam-nos de rastos. Quer pelos sonhos irreais que tu tinhas e eu contrariava, quer pelo perfeccionismo que tu não gostavas em mim. Depois tínhamos aqueles momentos que me deixavam ansiosa para falar contigo. Sabia exactamente qual seria a tua opinião. Sabia que podia dizer o que tinha a dizer contigo. E chegava ao pé de ti, saía-me uma palavra e tu adivinhavas o que eu tinha para dizer. Às vezes concordavas apenas com uma gargalhada estúpida e isso bastava-me na nossa cumplicidade. Aliviava-me a partilha das ideias loucas que sempre me passaram pela cabeça e acho que a ti também. Nunca foi em vão que fiquei com tantas coisas por dizer porque o ritmo a que produzíamos ideias sobre as nossas músicas, os nossos filmes, as nossas fotografias e os nossos planos era elevado.

I

No dia em que morreste não consegui acreditar. Ainda não consigo. Sempre que estás em mim, nas minhas, nas nossas coisas, não consigo acreditar. Ainda estás quente. Estás comigo.
Não te consigo deixar ir. E também sei que não vais a lado nenhum. É por mim que faço isto, porque prometemos o resto da vida. Mas também é por ti, porque não tens onde ir a não ser ficar na minha memória. Não é surpresa ou segredo para ti. Sabes que não acredito em mais nada para além desta vida que tu tinhas. Não estás em lugar nenhum melhor, não olhas por ninguém, não existe mais nada. Só o que foste sozinha e connosco.