terça-feira, 10 de setembro de 2013

Agora, com certeza.

Estou a apagar-me. Dia-a-dia. De mês para mês. De há quase 3 anos. Estou a apagar-me. Já não faço parte do café. De um casal. Da conveniência. Da casa de um amigo. Do jantar da universidade. Vai sobrando o ´Olá´porque estás. A falta de assunto. Os dois beijos na cara. O ´fico em casa porque estou com a única pessoa que preciso. No sofá. E aqui está quente.´. Há qualquer coisa a menos. E se vos perguntar respondem-me que é tempo que vos falta. Que o trabalho é cansativo. Que amanhã acordo cedo. E eu respondo, honestamente, ´Está bem, eu compreendo´. E depois vou no carro a pensar. Será que compreendo? Será que é falta de tempo? Ou no fim de contas é só tempo a mais. Ela há-de cá voltar. O filme há-de dar para fazer o download. O restaurante ainda não fechou. A exposição ficava longe e afinal não era assim nada de especial - disse um amigo meu. As estradas são as mesmas. A Arrábida este ano não ardeu. Quem é que se casa primeiro?

Ninguém vai beber café. Mas tenho-te a ti. E basta-me. Calhe-nos a sorte de ser sempre assim.

Estou a apagar-me. Mas ninguém me apagou. Com propósito. Com maldade. É que como não estou, o hábito é não estar. A rotina faz-se ausente de mim. E depois não faço mais falta. Genuinamente, o tempo que é muito faz-se sem mim. E quando eu volto, o tempo que é pouco não aviva a memória. Não vos faz voltar a ver. Genuinamente, sem propósito, sem maldade.

Tenho inveja e saudade. Que me trazem cá, mas destroem cada vez mais. Pergunto-me: Onde é que eu estou agora?

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sinto falta que me faças perguntas íntimas, as tuas perguntas que eram sempre as mais porcas, as mais verdadeiras. Não te interessava saber aqueles pormenores sem sabor, aquelas conveniências de quem tenta apenas manter conversa. Foste sempre a mais directa e perguntaste sempre o que tinha de ser perguntado. Às vezes ganhavas vergonha e escondias as perguntas atrás de uma expressão qualquer timida. E que fingida. Desatava a rir-me e pedia-te para te deixares de cenas. Depois contava-te tudo, sem pudor, sem vergonha, sem sentir que tinhas inveja do que quer que fosse. De vez em quando queria tanto que me perguntasses. Especialmente naqueles dias em que tinha a alma e o corpo cheia de borboletas, lagartas e insecticida. Naqueles dias de remoinho em que aquilo que achavas era importante para mim porque era sincero. Não me iludo a pensar que me ouvias sempre da mesma maneira. Às vezes também tinhas tantas lagartas em ti que as duas juntas formavamos casulos impossíveis de cuidar.
Tens de admitir, faltava-te um bocado de classe de vez em quando. E agora sim, posso dizer-te, que inveja. Na tua falta de classe estava a falta de pudor, a falta da vergonha, a falta do medo, a falta de pensar naquilo que outros podiam achar de ti. Eras tão fácil de gostar. E aqueles que nunca conseguiram chegar àquilo que realmente eras foi apenas porque nunca te esforçaste por agradar. Ofereceste sempre primeiro o teu lado desajeitado, a tua forma leviana de falar de sexo, a tua inércia. A quem conquistavas mesmo assim, oferecias uma lealdade sem fim, uma intimidade sem julgamentos, uma loucura inata por filmes, imagens e palavras bonitas. Oferecias mais, uma imensa falta de pretensões. O que era, era. E por fim, guardavas em ti os segredos que eram só teus. Nunca me incomodou que os tivesses. Deixava-nos à altura. Há coisas que ninguém tem de saber para além de nós. Há coisas que nos fazem corar por dentro só de pensar, e que nunca vamos deixar de fazer e sentir porque somos só humanos, somos animais. 



Vezes sem conta, fazes-me falta. E eu sei que te faço falta. Desde que caímos naquele baloiço. Fico à espera, não de te substituir, mas de encontrar alguém com tantas falhas e lascas, como tu, como eu. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Zanguei-me. E fiquei assim, zangada. Não sei o que mordeu, o que é que me afincou os dentes. E por isso, não sei deixar ir, perdoar. Olhei à minha volta, procurando entre o céu azul, as montanhas e os prédios. Não foi a falta do sol, não foi o excesso. Não foi a tua falta. A falta deles, da mãe, do pai. Também não foi o excesso. Não foi de não querer ou de querer demasiado. Não foi do anti-rugas, não foram as vitaminas.

Sobra apenas o mais irremediável, a dentada mais difícil de sarar. Sobro Eu.

Tirando roer as unhas, morder o interior dos lábios, cortar os dedos a cozinhar e fazer nódoas negras de bater em toda a parte, já não sou capaz de me aleijar. Já não consigo apagar cigarros na própria mão. Agora que me acho muito mais crescida, a única coisa que faço é procurar tréguas, declarar paz comigo mesma. Dispo-me dos outros mais vezes, obrigo-me a conversar comigo, a abraçar-me de vez em quando. E podia dirfarçar, dizer-me bem sucedida. Mas estou pesada para mim mesma. Pesada para os outros. Sou a má companhia de mim mesma.

Continuo a pintar telas, a afundar-me em ficções no meu computador, a ler histórias em papel, a cuidar dos meus doentes. À espera. Tão desesperadamente, tão discretamente à espera. Que esta raiva acabe.


"Já não sei o que te dizer. Estás sempre tão zangada. Não faças essa cara." diz a mãe à despedida.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sabes

Sabes... é agora. Que o frio nunca mais acaba. Que os teus avós ficam antigos e morrem. Que os teus melhores amigos passam dias sem se lembrar de ti. Que aquele homem que fazia sentido encontra outra direcção. Que a pele nunca mais escurece ao sol. Que fazes contas à vida, que pões os pesos na balança. Sabes... é já. Que não há voltar atrás. Que os teus olhos sabem mais do mundo, do cheiro, do toque. Que as conversas de antes trazem melancolia, sem desejo, mas com saudade. Que os teus pais tornam-se cansados. Que os seus conselhos são duros, por serem verdade. Por revelarem tanto acerca da solidão que há-de vir. Sabes... é neste momento. Que fechas os olhos, que não sentes nada. Que não choras. E ris porque sabe-te bem rir de ti mesmo. Tu sabes, não sabes? Que de ambivalências vivemos nós. No sim, no não. E não me respondas talvez. Talvez é adiar que sim, adiar que não. É temporário. No cá, no aí. E não me respondas a meio caminho. A meio caminho só estamos longe: do cá, do aí. E nunca estamos realmente em lugar algum.

Sabes... talvez seja assim. Que nos tornamos invisíveis, que somos memórias. Talvez. Até agora. E tu já sabes... ou que sim. Sem existir o ou que não.

sexta-feira, 22 de março de 2013

O muro estava pintado de branco



O muro estava pintado de branco, podia imaginar que não tinha sido pintado há muito tempo. A chuva arrastava a tinta para o meu vestido e as minhas mãos tremiam nas tuas. O teu casaco nos meus ombros fazia-me pensar nas regras do cavalheirismo e nas regras do corpo. O teu não era mais forte que o meu. E ainda assim, porque não podia ser de outra maneira, ofereceste-mo para cobrir os meus braços, deixando os teus ao frio.

Sorrias sempre depois de me dar um beijo na testa, no queixo, nos lábios. E eu já nem conseguia distinguir as gotas da chuva que desciam pela tua cara, das lágrimas que eram demasiado para os teus olhos. Às vezes apertavas-me o corpo, não posso dizer que me abraçavas. Apertavas com força e largavas tão rápido quanto a memória de que não me ias ter mais.

Eu passava a mão pelo teu cabelo molhado, parava no teu pescoço e ficava ali. Os meus olhos não te diziam  nada, a minha boca não te dizia nada. Não te apertei, não te mandei embora, não te deixei ficar. E como antes, voltaste a dizer que eu era fria. Que eu precisava ser mais humana.

Já sentia os pés molhados, e pensava, sem te dizer, que sou mais humana do que tu sabes.

Deste um beijo nos nós das minhas mãos e foste embora. Fiquei a ver-te andar. Sem nunca correr atrás de ti. Sentei-me no muro que era branco. Ninguém passava àquela hora. E acabei por vir parar aqui.


sábado, 2 de março de 2013

Já ninguém diz nada. Agora é a medo, lembrar.

Já não digo nada, com tanto que tenho para te dizer. É que ficaste aí parada, e nós temos de continuar. Nós queremos continuar.E quantas são as vezes que acho que não mereço mais do que tu. Quantos são os dias em que me culpo de ter mais tempo.