segunda-feira, 25 de março de 2013

Sabes

Sabes... é agora. Que o frio nunca mais acaba. Que os teus avós ficam antigos e morrem. Que os teus melhores amigos passam dias sem se lembrar de ti. Que aquele homem que fazia sentido encontra outra direcção. Que a pele nunca mais escurece ao sol. Que fazes contas à vida, que pões os pesos na balança. Sabes... é já. Que não há voltar atrás. Que os teus olhos sabem mais do mundo, do cheiro, do toque. Que as conversas de antes trazem melancolia, sem desejo, mas com saudade. Que os teus pais tornam-se cansados. Que os seus conselhos são duros, por serem verdade. Por revelarem tanto acerca da solidão que há-de vir. Sabes... é neste momento. Que fechas os olhos, que não sentes nada. Que não choras. E ris porque sabe-te bem rir de ti mesmo. Tu sabes, não sabes? Que de ambivalências vivemos nós. No sim, no não. E não me respondas talvez. Talvez é adiar que sim, adiar que não. É temporário. No cá, no aí. E não me respondas a meio caminho. A meio caminho só estamos longe: do cá, do aí. E nunca estamos realmente em lugar algum.

Sabes... talvez seja assim. Que nos tornamos invisíveis, que somos memórias. Talvez. Até agora. E tu já sabes... ou que sim. Sem existir o ou que não.

sexta-feira, 22 de março de 2013

O muro estava pintado de branco



O muro estava pintado de branco, podia imaginar que não tinha sido pintado há muito tempo. A chuva arrastava a tinta para o meu vestido e as minhas mãos tremiam nas tuas. O teu casaco nos meus ombros fazia-me pensar nas regras do cavalheirismo e nas regras do corpo. O teu não era mais forte que o meu. E ainda assim, porque não podia ser de outra maneira, ofereceste-mo para cobrir os meus braços, deixando os teus ao frio.

Sorrias sempre depois de me dar um beijo na testa, no queixo, nos lábios. E eu já nem conseguia distinguir as gotas da chuva que desciam pela tua cara, das lágrimas que eram demasiado para os teus olhos. Às vezes apertavas-me o corpo, não posso dizer que me abraçavas. Apertavas com força e largavas tão rápido quanto a memória de que não me ias ter mais.

Eu passava a mão pelo teu cabelo molhado, parava no teu pescoço e ficava ali. Os meus olhos não te diziam  nada, a minha boca não te dizia nada. Não te apertei, não te mandei embora, não te deixei ficar. E como antes, voltaste a dizer que eu era fria. Que eu precisava ser mais humana.

Já sentia os pés molhados, e pensava, sem te dizer, que sou mais humana do que tu sabes.

Deste um beijo nos nós das minhas mãos e foste embora. Fiquei a ver-te andar. Sem nunca correr atrás de ti. Sentei-me no muro que era branco. Ninguém passava àquela hora. E acabei por vir parar aqui.


sábado, 2 de março de 2013

Já ninguém diz nada. Agora é a medo, lembrar.

Já não digo nada, com tanto que tenho para te dizer. É que ficaste aí parada, e nós temos de continuar. Nós queremos continuar.E quantas são as vezes que acho que não mereço mais do que tu. Quantos são os dias em que me culpo de ter mais tempo.