Já era a segunda vez. Que estávamos, que éramos. Era um segundo ano da mesma experiência. E as muralhas eram iguais, tão como nos filmes, tão como nas vidas reais. Enormes blocos de pedra sofrida de ventos e vendavais, de ervas miúdas e evasivas. À volta, campos meio mortos, meias árvores, meios arbustos, meio tudo. Vastidão. Éramos mandados, controlados. Envoltos na humidade e no cinzento que faz ser sempre noite. Estávamos porque queríamos e andávamos muito no mesmo sitio, pelas mesmas razões e ordens. O nosso silêncio era pelo som ferrugento das muralhas. E os seus donos, donos de capa escura e capuz. Tinham faro apurado, faces animais, pernas esguias. E nunca diziam nada. Andavam e corriam rápido. Traziam sopros à passagem e os nossos ombros encolhiam o peito.
Junto às paredes estavam cubos de vidro, altos. E havia gente grande, de corpo grande. Dentro dos cubos de vidro. Uma vez falei com uma mulher. Mulher grande. Não deixei que o braço esticado me tocasse. Era tão nova. Tão bonita. Mas não me disse muito. E eu não perguntei nada. Depois ouvimos soar o aviso. O esperado e não desejado aviso. Nem nos questionámos como da primeira vez. Corremos muralhas fora. Campo dentro. E deixámo-nos cair junto aos arbustos rasos, de corpo estendido. Muito quietos. Com muito silêncio.
Lembro-me de saber que era ali. Tinha sido assim da primeira vez. Nenhum de nós ficou com vida. E lembro-me de pensar. Se assim o era. Como é que tínhamos voltado? Porque é que tínhamos voltado?
De qualquer forma, soube que éramos suicidas, e por isso, convenci-me que queria estar ali.
Ao longe, eles chegavam, rápido, tão rápido. E eu sentia as pedras cravarem-se na pele do corpo.