sábado, 25 de fevereiro de 2012

Quando o corpo deixa de saber estar num lugar. Quando já não se endireita, quando está menos alerta onde em tempos fervia. Quando quer ficar, mas tem medo de já não saber ficar.

Quando o corpo sonha que cai de carro pela serra. E rodopia em câmara lenta, para sentir tudo. A sensação de fim, de uma estranha resignação. E sem pânico. Porquê?

Deixa-me ir.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

"I lost my voice",

Era o que ela tinha escrito numa folha A4 branca, colada ao peito. Assim, perdoei a ausência do Olá. A ausência da formalidade dirigida ao cliente, a ritmada simpatia, a voz monótona que pergunta se preciso de um saco, que posso digitar o código, que me agradece no fim da compra. Foi tudo exactamente igual, mas sem palavras.

E fiquei com a folha A4 na cabeça. E comecei a desejar usar folhas A4 para o "Perdi a voz", ainda que consiga falar, "Perdi a paciência", mesmo que tenha de a ter, "Perdi a compostura", "Perdi a energia", "e a cabeça, e a vontade, e a mim", que me perdi. Só que depois não sobrava corpo sem papel, só os olhos a espreitar, sem quererem deixar de ver. E à minha volta perdoavam as ausências do que eu tinha perdido, sem sobrar nada. Não me exigiam, não me viviam. E eu perdoava o que à minha volta tinham perdido, e sem darmos conta ficávamos sozinhos, no respeito de ambas as perdas.

"I lost my voice", era o que ela tinha escrito numa folha A4 branca, colada ao peito. Mas não se foi embora. Ela sorriu em vez de falar. E o resto, o resto nós sabíamos responder.