domingo, 25 de dezembro de 2011

Querido Pai Natal,

Diz-me, por favor, se vai ser sempre assim. Se vou desejar que o tempo corra sempre que se aproximar alguma coisa que antes me trazia alegria. Se vou querer fechar os olhos para ser Janeiro. Mas ainda for Dezembro. E depois se for Setembro, e quem sabe quando for Fevereiro.

Diz-me lá se correr por gosto afinal cansa. Se vale a pena.


Diz-me a verdade.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Bocados

Sou tantos bocados. Das pessoas à minha volta. Do que elas são. Do que me dizem, do que me pedem, do que me negam. Sou pedaços do que elas gostam, do que as inspira, do que as deita por terra.

Às vezes penso se serei só bocados, se não sobra alguma coisa só minha. Penso se sou apenas o que desejo parecer ser, ou se num infindável falhanço ainda sobra o que realmente sou.

Às vezes penso que sou só os bocados que eles não querem, mas na verdade sou os vários pedaços que eles não conseguem esconder. Sou os bocados que eles desejam ser, e de vez a vez, consigo ter bocados do que eles realmente são.

E acredito. Que sou a mistura inigualável destes bocados. E mesmo que não sobre nada meu. Não me sinto sozinha.

Eles, as pessoas à minha volta, também são retalhos dos outros, do que eles desejam ser, e, às vezes, pequenos remendos daquilo que eles realmente são. São misturas solúveis, às vezes insolúveis, mas únicas.

Somos espelhos a viver finitamente e a reproduzir o que agarramos dos outros. Esses outros, são espelhos a viver finitamente e a reproduzir o que agarram...dos outros.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

XIII

Chovia. E tínhamos só um guarda-chuva. Lembras-te do que lhe aconteceu? Não era grande coisa.

E fez-nos rir, enquanto procurávamos onde jantar, enquanto nos molhávamos de cima a baixo, enquanto corríamos o Porto ali para os lados da Sé. Faltou-me o fôlego algumas vezes: entre rir e correr e enfiar-me numa poça de água contigo.

Depois jantámos no restaurante mais escondido que podia existir, acho que nem consigo lá voltar, e com aquele encantamento do que é novo e aquela sensação inebriante, em parte pelo álcool, em parte pelo nervoso miudinho das entrevistas do dia a seguir. Lembro-me que bebemos Mateus Rosé e que tu comeste lulas. Não me lembro do que jantei.

Voltámos à residencial, novamente por baixo de chuva, e desta vez sem a capa de um dos meus saltos das botas, que tu conseguiste arrancar quando tropeçaste em mim. Ficámos noite fora a enrolar a língua para treinar o inglês e a desesperar por conhecer um futuro que nos mudaria a vida.

À meia noite, dia 6, fizeste 22 anos, ainda não tinha uma prenda para ti, mas eu sabia que nem era preciso. Tinhas escolhido passar o teu dia de anos ali, a lutar a medo, por um sonho. Escolheste fazê-lo comigo, e para mim, não haveria no mundo algo que fizesse mais sentido do que viver este momento contigo. Foi assim com tudo e ponho as mãos no fogo, em como tu sentias exactamente o mesmo que eu.

Adormecemos de televisão ligada. Dormimos mal, de corpo irrequieto. E acordámos cedo para o dia que finalmente separou o que a vida havia de nos trazer. Foi a primeira vez, desde sempre, que nos negaram uma jornada juntas. E nós sabíamos que algum dia assim teria de ser.

Telefonaste uma semana mais tarde, assim que recebeste a chamada. Não tinhas passado. E fomo-nos conformando. O plano era tentares mais tarde, eu ficava à tua espera.


Um ano depois, continuo à tua espera.


Fazias 23, eu ligava-te dentro de minutos. Chamavas-me "Babe" e riamos. Eu perguntava-te sobre há um ano atrás e tu lembravas toda a chuva e o guarda chuva partido. Dizia-te que gostava de estar em Azeitão para estar contigo e que a prenda tinha sido enviada pela minha mãe. Combinávamos ir ver Florence em Julho ao Optimus Alive. Despedias-te com uma arroba. Não te dizia que gostava de ti, tu sabias. E amanhã falava contigo.

Parabéns amiga.