sábado, 19 de abril de 2014

Tenho andado para te dizer,

Que daquilo que planeamos com a cabeça na terra, metade não se concretiza.

Que não vamos a todos os lugares que pensámos ir.

Que começamos a gostar do sabor das coisas que dissémos não gostar a vida toda.

Que às vezes ficamos por casa, no sofá e o dia está bonito lá fora.

Que sabe melhor a ausência das pessoas do que a ausência das coisas.


quarta-feira, 12 de março de 2014

Tenho andado a pensar no medo. Cheguei ao ponto em que o medo quase só mete medo se for para sempre. Somos quase sem medo se não for para sempre. Até ao escuro perdoamos o susto se for por pouco tempo. É quando os olhos começam a ver melhor na escuridão que ficamos com medo. Vemos melhor, mas vemos com mais cuidado, com mais olhos, com mais tacto, mais pele e nariz. E imaginação.
A dor aguenta-se. Forte, penetrante, afiada. Se for pouco tempo. E se me disserem, vão ser só uns minutos. O medo encolhe-se, fica mais baixo que eu. Posso olhá-lo de cima e pensar; ´Não tardará para que desapareças´.
´Vai demorar muito?´, perguntaste-me tu. E eu virei a cara sem te dar resposta. Acho que vai durar a tua vida toda. Mas como é que posso dizer-te assim, sem que o medo te agarre e te torne pequenina. É que é para sempre. O teu sempre vai ser  cheio desse medo. As sombras serão sempre silhuetas. As coincidências serão sempre premeditadas. Não vai passar.

Tenho andado a pensar no medo. Oxalá alguém nos dissesse ao ouvido; ´Desta vez não é para sempre.´ Só para saber. Só para saber.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Paixões Abandonadas I

Vá de olhar ao espelho. E encontrar no corpo alguma paixão abandonada. A marcar a pele, daquela forma que até levamos ao médico para nos descansar a sensatez e dizer que está tudo bem, que é normal. Não vai desaparecer, mas também não fica maior se não se puser a esgaravatar. Olhamos para o abandono todos os dias, às vezes passamos só a mão, quando achamos que não temos tempo.
E andamos assim, todos cheios de paixões abandonadas. Algumas conseguimos tapar com a roupa. Os menos afortunados andam com elas à mostra e toda a gente as vê. Mas não faz mal, já ninguém diz nada. Parece que nos habituámos a abandoná-las. Sem querer. Ou deliberadamente.

Depois há quem chegue ao fim do dia e respire de alívio. Não era uma paixão abandonada. Afinal era só uma zona de pressão na pele. Por se ter ficado muito tempo na mesma posição.