domingo, 30 de setembro de 2012

Ainda agora,

Ainda agora aqui cheguei. Já me estou a ir embora. Com este peso nos olhos, molhados. Com este peso no peito. Sinto o meu corpo a dobrar,  a tender para o chão.

Ainda agora aqui cheguei. Vocês falam-me do que já aconteceu. Eu tento dizer alguma coisa, mas já foi tudo dito. Já passou.

Ainda agora aqui cheguei, não tenho tempo de vos sentir inteiros. Vejo metade de vocês.

E agora vou-me embora. Com saudade de não sentir medo. Que vocês se esqueçam de mim.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Charlie,

onde estás? Para onde vão as almas dos corpos que não morrem, mas enlouquecem? 

           Conheci um Senhor, como os outros. Embaraçado, a lamentar. A enfermeira tem de ajudar a urinar. A enfermeira tem de ajudar a levantar, a baixar as calças. E o Senhor pede desculpa, agradece, a noite toda. Foram 3, as noites. 3 noites a desculpar, 3 noites a baixar as calças, a aconchegar os lençóis,
"Tente descansar Charlie, Boa noite".
"Boa noite Laura".
       Charlie, onde é que te perdeste? Que estranho mundo é esse em que ficaste na tua cabeça? Que conexões é que se fizeram, o que é que se desfez? O que é que aconteceu na natureza, que matéria é que se alterou? Que física, que química? Te levaram daqui.
        É de madrugada, esqueceste-te do meu nome. No dia a seguir,deste-me outro. Passei a ser russa, depois alemã. Escondida. Olhaste para os outros homens deitados ao teu lado. Fizeste ameaças, falaste baixinho. Já não pedes desculpa. Estás a ser verbalmente agressivo. Obsessivo. Estás a andar de um lado para o outro. Agarro-te, como é que posso ter medo de ti? És rápido, bebes o álcool desinfectante, chega a segurança. Vais ser posto da cama. Agarrado, à força.
"Olha para mim Charlie, como é que eu me chamo?".
           Já não sabes quem eu sou. E olho-te nos olhos: És outro homem dentro do mesmo corpo. Penso para mim se vais voltar. Não sei se vais voltar. No fim da tarde a tua família pergunta por ti. Aponto-lhes um homem. Um que eu conheci há 3 dias atrás, que eles conheceram a vida toda. Mas não és tu que aí estás.
"Oh Charlie, volta."
Penso em ti. Pior que a doença dos braços, das pernas, do tronco, é ser dois homens diferentes em 4 dias.