Fomos tantas vezes àquele baile, o que tinha o terraço grande.
Metade das vezes quiseste dançar comigo. Na outra metade dancei contigo. Mas ver-te ali sentado, a saber que o teu coração pulsava mais rápido só de olhar para mim, fazia-me pensar que tinha nascido para me veres. E era sempre assim. Mesmo ao fim de tantas valsas, eu sentia-te assim. As mesmas mãos tremidas só de me tocar. As palavras que não saíam, ou se saíam, eram trocadas. O teu riso tímido, de dentes escondidos. O respeito nos teus olhos, no espaço entre os nossos corpos mesmo quando se tocavam para dançar.
Gostava de pousar o meu queixo no teu ombro, deixar-te guiar os meus pés. E depois acho que deixei que me guiasses a vida.
Não sinto vergonha. Naquela altura os homens guiavam-nos a vida. Precisavam ser muito especiais, as mulheres, para ganhar voz, conquistar mundos. E eu não era assim. Não conheci pessoalmente alguém que fosse assim. O mundo que me interessava conquistar era o nosso. Onde tu e eu éramos o que quiséssemos, um com o outro e às vezes separados. Interessava-me conquistar-te todos os dias, dançar contigo todos os dias, contar contigo todos os dias. Até naqueles em que não te queria, que me queria só a mim, sozinha. Interessava-me tudo de igual para igual, num mundo que era desigual por si só, para mim, que era mulher, para ti, que eras homem. Não me interessava o que os outros pensavam, e por mim, eu podia ser o que eles quisessem que eu fosse: na sua forma de pensar. Nunca precisei de lhes dizer que também cozinhavas, que lavavas a loiça. Nunca fiz questão de te pavonear, de exibir o respeito que tinhas por mim. Bastava-me senti-lo, honrá-lo com respeito reciproco.
Agora olho para ti, aqui no terraço onde acabámos por pôr um banco de madeira. Na casa onde se davam os nossos bailes, com as mesmas heras que ainda crescem pela parede e onde acabámos por vir morar. Já arrastas uma perna quando andas e demoras a chegar ao pé de mim. Sentas-te e consigo cheirar a água de colónia que usas desde há uns anos. A tua pele tem rugas, as tuas mãos são agora ásperas. O meu cabelo é branco. Ainda temos assunto de conversa, falamos a tarde toda. E depois é hora de jantar, levanto-me. A caminho da cozinha seguras o meu braço, impedes-me de andar e começas a dançar comigo, em silêncio. Os nossos pés já não se mexem muito, mas o nosso corpo baloiça lentamente, para um lado, e depois para o outro. Pouso o meu queixo no teu ombro e sinto o teu coração pulsar como há 40 anos.
Nessa altura, lembro-me de encostares a tua boca ao meu ouvido e dizer:"Era capaz de ficar aqui a vida toda".
E agora apercebo-me que ficámos.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
X
Este ano,
O que nós perdemos.
Uma à outra.
Eu perdi a frequência dos outros.
Tu perdeste a frequência de tudo.
Eu perdi um Verão.
Tu perdeste as estações.
Eu perdi a vontade.
Tu perdeste a vida.
E eu ainda não sei acreditar que vou viver com saudades tuas para o resto da minha vida.
O que nós perdemos.
Uma à outra.
Eu perdi a frequência dos outros.
Tu perdeste a frequência de tudo.
Eu perdi um Verão.
Tu perdeste as estações.
Eu perdi a vontade.
Tu perdeste a vida.
E eu ainda não sei acreditar que vou viver com saudades tuas para o resto da minha vida.
Subscrever:
Comentários (Atom)